15/09/2011

A Tartaruguinha Tatá




O lançamento do livro infantil “A Tartaruguinha Tatá” de Antonieta Mercês com ilustrações minhas, ocorreu durante a 2ª Feira do Livro e da Arte, em Ganchos do Meio, (município de Governador Celso Ramos), agosto de 2011.
A Editora é a
PANDION, de Florianópolis. Os livros podem ser encontrados a venda na internet editorapandion@editorapandion.com.br e em livrarias: Catarinense, Nobel, Livros&Livros, entre outras. Mergulhe na história da pequena tartaruga marinha Tatá, que passa por muitas aventuras para encontrar a mamãe e os irmãos.

12/09/2011

A Imagem

Tomás era uma pessoa comum. Classe média, amigos, futebol, uma vida regrada e absolutamente usual. Não era ambicioso, nunca se apaixonou, nunca fez nada contra nem a favor de ninguém... Mesmo perto dos quarenta, morava com a mãe, na antiga casa da família. Era mais prático, ela se sentia útil e ele, confortavelmente instalado. Como qualquer um, tinha lá seus problemas em casa, no trabalho, seus traumas do colégio, suas questões existenciais. Normal. Mas um fato em sua vida mudou por completo aquela existência medíocre.

Como todo dia, acordou, tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e desceu para conferir a correspondência. Ao passar pela sala de estar, parou em frente ao espelho sobre a lareira e admirou a sua imagem. Talvez sob o efeito da linda moldura dourada século XVIII, ou talvez a proximidade dos óleos sobre tela de seus ancestrais na parede, os rostos austeros e confiáveis. Talvez a luz que vinha da janela, filtrada por uma cortina semi-aberta. Sim, definitivamente a iluminação faz diferença. Um raio luminoso incidia diretamente em seu rosto, produzindo um efeito misterioso, como nos filmes noir.

Da mesma forma que acordando de um sono profundo, ele se olhou demoradamente e aos poucos os sinais apareceram. O coração disparado, o rosto corado, as pupilas dilatadas em olhos brilhantes. Admirou o queixo bem formado, a boca, os olhos castanhos e bem emoldurados pela grossa sobrancelha, o nariz grego, a face, o cabelo molhado e displicentemente ajeitado com os dedos caindo sobre a testa. Adonis, nada menos. Tomás apaixonou-se pela própria imagem. Uma insanidade! - Poderia dizer qualquer pessoa. Mas, afinal onde está a linha que a separa da sanidade? Uma leve inclinação e... Pronto! Andamos pelo universo paralelo da loucura? Quem pode julgar onde atravessa esta linha, já que somos todos humanos e passíveis de “leves inclinações”?

O dia no trabalho transcorreu lento. Não conseguia se concentrar, nada mais importava. Aos colegas, apenas monossílabos. Contou horas e minutos para voltar àquele lugar à frente do espelho da lareira e encontrar novamente a imagem do outro lado. Como se ela não estivesse lá sempre no mesmo instante em que ele estivesse cá. Como se o seu reflexo não fosse o mesmo em qualquer superfície espelhada. Estremecia ao imaginar que um atraso pudesse botar tudo a perder, o tempo parecia ter que estar perfeitamente ajustado. Neste dia aprendeu a sofrer. O medo da perda, o tempo estendido pelo simples fato de querer que ele passasse rapidamente. A dor da ausência, uma dor física, localizada no meio do peito. E a cabeça a perder o fio do pensamento...

Enfim acabou o expediente e Tomás podia retornar para casa. Aproveitou cada segundo do caminho, ouvia sua respiração e percebia o coração batendo, o mundo estava girando ao seu redor. Sentia-se vivo pela primeira vez, desejava a vida como nunca desejara antes. Andando sozinho, sorria enquanto esfregava as mãos nervosamente e brincava de lembrar dos quadros ao redor do espelho. Chegando em casa, ainda fez algum suspense, fingindo desinteresse. Conversou brevemente com a mãe, comeu uma maçã, banhou-se e andou vagarosamente para o local desejado. Ah, encontro benigno e apaziguador. Entidade fantástica das esferas celestes, deus dos deuses. Experimentar tal sensação é a razão da existência humana.

Não quis jantar e ali ficou até adormecer, entorpecido com a imagem e o sentimento que causava. Amanhecendo, Tomás espreguiça-se longamente, ainda com a sensação de plenitude e completa bem-aventurança. Aos poucos percebe que há algo estranho... Oh, ele está do lado errado do espelho e seu corpo está caído do lado de cá! De dentro do espelho, vê sua mãe chorando e comentando com os paramédicos que o avô, o pai e agora o filho, faleceram cedo, exatamente assim, naquela sala.

Desolada, a mãe vende a casa com tudo dentro e vai morar no litoral, como sempre quis. Tomás não compreende como isto pode ter acontecido, tenta em vão pôr ordem nos seus pensamentos. Isto já é muito difícil do lado de cá, imagine lá, onde o tempo não corre da mesma forma, a imagem é inversa e o espaço é diferente: Nada existe fora daquilo que aparece no espelho, há somente aquela sala no meio do nada.

Tomás teve tempo de pensar na sua curta existência, mas estava satisfeito por ter tido a sublime experiência do amor ao menos uma vez. Relaxado e feliz, ele foi se esvaindo, desaparecendo, sumindo. Mas ainda pôde ver o novo dono da casa chegando com as suas coisas e não demorou a perceber aquele olhar fixo e brilhante sobre o espelho.

Tomás = Gêmeo em Aramaico