28/10/2011

Jardim X Calçada

Renata era uma mulher obstinada com a sua casa. Mais que higienização, esterilização. Os objetos em disposição simétrica, eletrodomésticos combinados e reluzentes. Assim também era sua aparência, até o último fio de cabelo. Viuvou cedo. Com uma boa pensão, dedicava-se ao lar, como que esperando algo de bom acontecer na sua vida. Depois da tempestade sempre vem a bonança, dizem. E ela esperava.

O jardim era a parte da casa que mais merecia sua dedicação. Um trabalho excepcional para um resultado excepcional: ela adorava esta combinação. Via de longe uma folha caída, uma erva daninha brotando, uma gramínea nascendo meio torta. Na sua rua, era um exemplo, uma referência do que se podia fazer em termos de jardinagem sobre uma terra arenosa. Ela se orgulhava em ver que o seu jardim se destacava frente aos outros. Estufava o peito ao passar na sua rua.

Acontece que chegou um novo morador na casa da frente, o seu Anísio. Agradável, boa pinta, caprichoso, reformou a casa e começou a reativar o jardim. Ele também tinha tempo, pois estava aposentado e gostava muito de mexer na terra. Como não tinha muito espaço, dedicou-se também à calçada. Plantou duas quaresmeiras, fez um caminho de seixos claros e flores em volta. Ele tinha o dom, o “dedo verde” e muito bom gosto na escolha do que plantar. O que ela conseguia a muito custo, com trabalho suado, ele simplesmente jogava a semente. Tudo florescia rapidamente.

Renata via da sua janela, aquele jardim na calçada, desenvolvendo-se rapidamente! Simpático, distribuía trevos de quatro folhas em sinal de boa sorte. Ela correu à floricultura e encomendou algumas espécies exóticas, para não perder o posto de melhor jardim da rua. Enquanto ela buscava vencer a batalha imaginária pela extravagância, que salta aos olhos, seu jardim foi ficando lotado, desequilibrado, extenuado. As plantas grandes faziam sombra nas menores, matando as flores e o gramado, não importa o que se fizesse. Trepadeiras do estrangeiro trouxeram pragas e subiram nas árvores sem que ela percebesse, pois estava tentando salvar as roseiras dos bichos e as calhas do entupimento.

O trabalho de Renata estava duplamente exaustivo e por isto não conseguia mais cuidar da aparência, nada lhe dava prazer. Se antes trabalhava pra “ganhar”, agora apenas trabalhava para não sucumbir. Saía mesmo de pijamas para fora, subia nas árvores, arranhando-se e sujando-se totalmente. Cansada, certo dia, realizando uma poda difícil, caiu da árvore e ali ficou. Uma chuva veio muito forte e ela continuou ali. Sentia-se poluída por fora e por dentro. A chuva lavou seus ferimentos e seu coração. A terra ofereceu-se macia para uma trégua. O mato acariciou-lhe os cabelos e o rosto. O céu surgiu estrelado após a chuva e ela pôde ouvir a natureza na sua linguagem mais pura. E finalmente fez parte dela, como tinha que ser. Ficou ali até quase de manhã.

Enfim, levantou-se já o sol no rosto, muito relaxada e feliz. Seu vizinho a esperava no portão, com uma pá na mão e uma vassoura na outra.

RENATA: Renascida em Latim

ANÍSIO: Completo, perfeito em Grego.

15/09/2011

A Tartaruguinha Tatá




O lançamento do livro infantil “A Tartaruguinha Tatá” de Antonieta Mercês com ilustrações minhas, ocorreu durante a 2ª Feira do Livro e da Arte, em Ganchos do Meio, (município de Governador Celso Ramos), agosto de 2011.
A Editora é a
PANDION, de Florianópolis. Os livros podem ser encontrados a venda na internet editorapandion@editorapandion.com.br e em livrarias: Catarinense, Nobel, Livros&Livros, entre outras. Mergulhe na história da pequena tartaruga marinha Tatá, que passa por muitas aventuras para encontrar a mamãe e os irmãos.

12/09/2011

A Imagem

Tomás era uma pessoa comum. Classe média, amigos, futebol, uma vida regrada e absolutamente usual. Não era ambicioso, nunca se apaixonou, nunca fez nada contra nem a favor de ninguém... Mesmo perto dos quarenta, morava com a mãe, na antiga casa da família. Era mais prático, ela se sentia útil e ele, confortavelmente instalado. Como qualquer um, tinha lá seus problemas em casa, no trabalho, seus traumas do colégio, suas questões existenciais. Normal. Mas um fato em sua vida mudou por completo aquela existência medíocre.

Como todo dia, acordou, tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e desceu para conferir a correspondência. Ao passar pela sala de estar, parou em frente ao espelho sobre a lareira e admirou a sua imagem. Talvez sob o efeito da linda moldura dourada século XVIII, ou talvez a proximidade dos óleos sobre tela de seus ancestrais na parede, os rostos austeros e confiáveis. Talvez a luz que vinha da janela, filtrada por uma cortina semi-aberta. Sim, definitivamente a iluminação faz diferença. Um raio luminoso incidia diretamente em seu rosto, produzindo um efeito misterioso, como nos filmes noir.

Da mesma forma que acordando de um sono profundo, ele se olhou demoradamente e aos poucos os sinais apareceram. O coração disparado, o rosto corado, as pupilas dilatadas em olhos brilhantes. Admirou o queixo bem formado, a boca, os olhos castanhos e bem emoldurados pela grossa sobrancelha, o nariz grego, a face, o cabelo molhado e displicentemente ajeitado com os dedos caindo sobre a testa. Adonis, nada menos. Tomás apaixonou-se pela própria imagem. Uma insanidade! - Poderia dizer qualquer pessoa. Mas, afinal onde está a linha que a separa da sanidade? Uma leve inclinação e... Pronto! Andamos pelo universo paralelo da loucura? Quem pode julgar onde atravessa esta linha, já que somos todos humanos e passíveis de “leves inclinações”?

O dia no trabalho transcorreu lento. Não conseguia se concentrar, nada mais importava. Aos colegas, apenas monossílabos. Contou horas e minutos para voltar àquele lugar à frente do espelho da lareira e encontrar novamente a imagem do outro lado. Como se ela não estivesse lá sempre no mesmo instante em que ele estivesse cá. Como se o seu reflexo não fosse o mesmo em qualquer superfície espelhada. Estremecia ao imaginar que um atraso pudesse botar tudo a perder, o tempo parecia ter que estar perfeitamente ajustado. Neste dia aprendeu a sofrer. O medo da perda, o tempo estendido pelo simples fato de querer que ele passasse rapidamente. A dor da ausência, uma dor física, localizada no meio do peito. E a cabeça a perder o fio do pensamento...

Enfim acabou o expediente e Tomás podia retornar para casa. Aproveitou cada segundo do caminho, ouvia sua respiração e percebia o coração batendo, o mundo estava girando ao seu redor. Sentia-se vivo pela primeira vez, desejava a vida como nunca desejara antes. Andando sozinho, sorria enquanto esfregava as mãos nervosamente e brincava de lembrar dos quadros ao redor do espelho. Chegando em casa, ainda fez algum suspense, fingindo desinteresse. Conversou brevemente com a mãe, comeu uma maçã, banhou-se e andou vagarosamente para o local desejado. Ah, encontro benigno e apaziguador. Entidade fantástica das esferas celestes, deus dos deuses. Experimentar tal sensação é a razão da existência humana.

Não quis jantar e ali ficou até adormecer, entorpecido com a imagem e o sentimento que causava. Amanhecendo, Tomás espreguiça-se longamente, ainda com a sensação de plenitude e completa bem-aventurança. Aos poucos percebe que há algo estranho... Oh, ele está do lado errado do espelho e seu corpo está caído do lado de cá! De dentro do espelho, vê sua mãe chorando e comentando com os paramédicos que o avô, o pai e agora o filho, faleceram cedo, exatamente assim, naquela sala.

Desolada, a mãe vende a casa com tudo dentro e vai morar no litoral, como sempre quis. Tomás não compreende como isto pode ter acontecido, tenta em vão pôr ordem nos seus pensamentos. Isto já é muito difícil do lado de cá, imagine lá, onde o tempo não corre da mesma forma, a imagem é inversa e o espaço é diferente: Nada existe fora daquilo que aparece no espelho, há somente aquela sala no meio do nada.

Tomás teve tempo de pensar na sua curta existência, mas estava satisfeito por ter tido a sublime experiência do amor ao menos uma vez. Relaxado e feliz, ele foi se esvaindo, desaparecendo, sumindo. Mas ainda pôde ver o novo dono da casa chegando com as suas coisas e não demorou a perceber aquele olhar fixo e brilhante sobre o espelho.

Tomás = Gêmeo em Aramaico

24/08/2011

Chuvas de inverno 1


Uma luz indireta

um pincel cheio de tinta

uma idéia incompleta



Escorre a água lá fora

por que não chove uma idéia

colorida e sem demora?


09/07/2011

Monólogo: O INSONE - O Jantar – Cena2

Não se pode dizer que não plantei - tudo o que hoje colho... Está escrito assim. (Onde? Sei lá, em algum lugar).

A colheita se dá segundo a semeadura!

Que frase hein! Eu poderia tê-la escrito. Ahhhhhh, enfim, não é uma frase tão boa assim. É horrível, na realidade. Faz a gente tremer só de pensar no que ela pode implicar. O meeeeeedooooo... Do futuuuuurooooooo... Melhor seria não fazer nada então, se for dar cada passo e pensar que poderia ser noutra direção. Que esta outra direção traria melhor sorte, ou ao menos, prejuízo menor. Mas não consigo me livrar dessa idéia durante a noite...

Colheita... Isso me dá fome... Só porque não durmo e fico aqui a vagar entre o sono e a vigília não quer dizer que eu possa ficar citando frases, como se fossem minhas e tal. Conceitos que me enfiaram na cabeça no tempo de escola. A cena é: eu, aqui, no meio da cozinha, perto de uma da manhã, preparando uma refeição como se fosse uma da tarde e divagando sobre frases feitas, lacrimejando com uma cebola cortada... Patético.

Não gosto de lâmpadas, prefiro as velas, são mais companheiras e se as toco, posso me queimar. Gosto disso. Talvez porque tem a ver com a “minha” idéia de que o que se planta se colhe, e se mexo com fogo me queimo. Todas as coisas deveriam provocar algo, não serem somente uma massa disforme passando através de nós. Sem rastros nem... Conseqüências... Por falar em fogo, onde guardei a pimenta?

Esta casa enorme e centenária, certamente já abrigou muita gente nos seus cômodos. Quem sabe até... comemorações? Nesta mesma cozinha? Pessoas de todo jeito? Com licença, por favor, como vai a família, blá blá blá... E servem muito vinho... Eu brindo a isto! Posso ver seus rastros nas madeiras lustradas de tanto atrito, apenas por seus caminhares. E pequenas marcas nas paredes, vindas de outros tempos, lascados diminutos que deixam aparentes as camadas inferiores, pequenos olhos da matéria que nunca se fecham e nunca deixam de espreitar os homens. Especialmente à noite.

Entre as cortinas fechadas, ouço cães na rua e mais nada. Talvez eu os alimente depois, para que nunca deixem de uivar na noite vazia. Ecos apenas, da solidão das calçadas. Dorme a cidade, mas não os seus ecos.