09/07/2011

Monólogo: O INSONE - O Jantar – Cena2

Não se pode dizer que não plantei - tudo o que hoje colho... Está escrito assim. (Onde? Sei lá, em algum lugar).

A colheita se dá segundo a semeadura!

Que frase hein! Eu poderia tê-la escrito. Ahhhhhh, enfim, não é uma frase tão boa assim. É horrível, na realidade. Faz a gente tremer só de pensar no que ela pode implicar. O meeeeeedooooo... Do futuuuuurooooooo... Melhor seria não fazer nada então, se for dar cada passo e pensar que poderia ser noutra direção. Que esta outra direção traria melhor sorte, ou ao menos, prejuízo menor. Mas não consigo me livrar dessa idéia durante a noite...

Colheita... Isso me dá fome... Só porque não durmo e fico aqui a vagar entre o sono e a vigília não quer dizer que eu possa ficar citando frases, como se fossem minhas e tal. Conceitos que me enfiaram na cabeça no tempo de escola. A cena é: eu, aqui, no meio da cozinha, perto de uma da manhã, preparando uma refeição como se fosse uma da tarde e divagando sobre frases feitas, lacrimejando com uma cebola cortada... Patético.

Não gosto de lâmpadas, prefiro as velas, são mais companheiras e se as toco, posso me queimar. Gosto disso. Talvez porque tem a ver com a “minha” idéia de que o que se planta se colhe, e se mexo com fogo me queimo. Todas as coisas deveriam provocar algo, não serem somente uma massa disforme passando através de nós. Sem rastros nem... Conseqüências... Por falar em fogo, onde guardei a pimenta?

Esta casa enorme e centenária, certamente já abrigou muita gente nos seus cômodos. Quem sabe até... comemorações? Nesta mesma cozinha? Pessoas de todo jeito? Com licença, por favor, como vai a família, blá blá blá... E servem muito vinho... Eu brindo a isto! Posso ver seus rastros nas madeiras lustradas de tanto atrito, apenas por seus caminhares. E pequenas marcas nas paredes, vindas de outros tempos, lascados diminutos que deixam aparentes as camadas inferiores, pequenos olhos da matéria que nunca se fecham e nunca deixam de espreitar os homens. Especialmente à noite.

Entre as cortinas fechadas, ouço cães na rua e mais nada. Talvez eu os alimente depois, para que nunca deixem de uivar na noite vazia. Ecos apenas, da solidão das calçadas. Dorme a cidade, mas não os seus ecos.