28/06/2011

Monólogo: O INSONE

Está caindo a tarde, como sempre acontece; chega o fim do dia, anoitece, como tem que ser. Preciso admitir que neste horário, assim que o sol baixa e amarela, começo a me agitar. É hora de começar a pensar na longa noite que se aproxima. Descanso para os outros, enquanto que eu... Eu não tenho sono, a noite me acorda com sua quietude. Nem a morte deve ser tão silenciosa! Quando as sombras aparecem e se encompridam pelas paredes, inicia a minha triste jornada noturna. Triste? Não tenho certeza se pode ser considerada assim, penso que não. Melancólica talvez, porque o silêncio que se instala me faz meditar sobre a vida e se torna impossível não rever os maus passos, remoer o arrependimento de não ter sido o que poderia.

Quando aparentemente tudo convida a deitar e dormir, ando pelos cômodos da casa, reviro gavetas e armários, os de matéria e os imateriais. Sempre encontro algumas coisas perdidas, que coloco em outro lugar, esquecendo-me logo em seguida. Não deveria guardar tantas rolhas de garrafa, envelopes (quem ainda escreve cartas hoje em dia?), botões encardidos, esperanças e ressentimentos. Sempre penso que posso precisar usá-los novamente sabe-se lá onde, ou quando. Ou simplesmente, não consigo achar um lugar perfeito, onde se encaixem.

Assim que as pernas e a mente cansam de vagar, sento-me nas escadarias e converso com as personagens retratadas a óleo, sobre a minha cabeça. São tão respeitáveis. Quantas coisas eu confesso ali... E como são gentis em não comentar nada, apenas ouvindo-me com toda a atenção! Desfio um rosário inteiro, nunca imaginei que tivesse tantas questões martelando-me a cabeça... Não imagino que as outras pessoas tenham tantas... Não é para menos que eu não tenha sono...

Talvez por estarem cansadas da minha ladainha periódica, as personagens ultimamente estão começando a dar alguns “pitacos”, completamente contra toda ordem estabelecida. É a primeira lei da casa: as pinturas devem ser resignadas – ponto. Não é permitido nem torcer o nariz! Hmmm Mas acho que sei quando a rebeldia começou... Foi quando comprei aquela tela de Napoleão no Mercado Livre. Disseram-me que era falsa, mas não acreditei, comprei-a justamente por sua veracidade. Paguei uma nota. Tudo nela parecia nobre: a expressão, a postura, a antiguidade da tela, as pinceladas... Mas só parecia... Estou ar-ra-sa-do. E para completar, como se não fosse o bastante, seus comentários irônicos sobre as minhas mais profundas verdades são todos em espanhol...

03/06/2011

Nume

Abílio era fotógrafo. Oferecia seus serviços de porta em porta, percorrendo toda região interiorana onde vivia. Gostava da profissão e registrava como ninguém a expressão mais autêntica do modelo, bastando-lhe para isto um dedo de prosa e uma rápida observação dos detalhes. Com os sentidos aguçados, ele analisava rapidamente a luz, a melhor lente, o entorno. Toda objetiva possui um sistema similar à pupila do olho humano, em forma de íris. Abre e fecha conforme a luz. Pronto. Ele capturava o espírito das pessoas nas suas retinas tecnológicas há 40 anos. Fazia tudo com apurada técnica e dedicação ao trabalho: retratos de família, batizados, casamentos. O fotógrafo documenta a história do lugar numa posição de fora, um singular espectador do mundo.

Toda pessoa tem um sonho secreto, uma coisa que deseja muito. O seu era ser violinista numa orquestra, desde que ganhara um violino do pai, quando era bem jovem. Sempre que podia, após o trabalho, vestia seu único terno negro e calçava os sapatos engraxados. Com uma gravata borboleta enfeitando-lhe o pescoço, abria a preciosa maleta, limpava, lustrava seu velho violino e tocava diante do espelho. Ali ele não era espectador, era protagonista. Via-se invencível dentro daquela moldura. Havia aprendido a tocar o instrumento com o pai, mas somente uma música: “Tu Mai Le”. Era tudo o que ele sabia, assim como o pai. Naqueles momentos em frente ao espelho, sentia que poderia criar uma nova música, mas lhe faltava algo.

Naquela época, um morador da região adquiriu um aparelho projetor de cinema de segunda mão e passou a reunir as pessoas ao lado da prefeitura. Reproduziam na parede caiada, ao ar livre, alguns filmes que conseguiam a duras penas. No horário marcado, as pessoas vinham de todos os lados, animadas, com suas cadeiras de palha e roupas de domingo. Cada filme vinha acondicionado em cinco ou seis latas. As partes eram emendadas no momento da apresentação. Abílio foi convidado a tocar seu violino para animar os filmes, que eram mudos. Ele ficava em pé, em frente à imagem projetada. Enquanto iam passando as cenas, ele tocava “Tu Mai Le”, mais lentamente ou mais rapidamente, conforme a ocasião. Ninguém ligava que fosse sempre a mesma música, era pura magia.

Foi lá, naquele cinema improvisado, que Abílio conheceu Anastácia. Ela apareceu na parede da prefeitura, com seu rosto expressivo, interpretando todas as mazelas de uma mocinha indefesa. O filme passou num dia de inverno, poucas pessoas na platéia, munidas de sacos de pipoca e limonada doce. Abílio, com seu olhar técnico de fotógrafo, sempre admirara os ângulos das filmagens, a incidência da luz e da sombra, o movimento. Mas o mundo parou para ele quando ela surgiu. Nada mais importava: só Anastácia e o violino.

Por um erro do operador da máquina, distraído com a moça da pipoca, a sexta lata de filme foi passada antes da quinta, invertendo o final da história. Após a cena de sua morte no filme, Abílio, ainda com lágrimas queimando-lhe as faces, vê estupefato, a sua heroína reviver como uma fênix. A última imagem projetada: Anastácia, olhando maliciosa para o único espectador atento. Tomado por um raro sentimento, acalorado pela paixão, ele tocou finalmente uma nova música, criada naquele momento único, eterno. À sua frente, apenas aqueles grandes olhos, que agora tomavam a parede toda.

Ah, os olhos de Anastácia, janelas da alma de Abílio...


*Anastácia = Ressurreição em Grego

*Abílio = Apto em Latim