10/04/2011

Domínio

Ronaldo sempre fora um menino inteligente e estudioso. Gostava de participar de tudo que pudesse: o grêmio estudantil, times de esportes, o coral, clube de matemática e xadrez, desafios de química e até da horta escolar. Competitivo, até ali conseguia se sobressair e desenvolver as melhores espécimes vegetais. Como fosse imbatível em várias áreas, sempre era escolhido para comandar os outros míseros mortais do colégio. Cresceu, formou-se em TI e foi trabalhar em uma importante multinacional do ramo de software e não descansou enquanto não fosse o chefe. Adorava aquilo, pesquisava o tempo todo e mesmo fora do trabalho sua mente não parava de programar sistemas. Em casa vivia conectado, participava de todas as redes de relacionamento possíveis e jogos on line. Não só pelo prazer, mas para analisar os detalhes da rede, os limites sempre em ampliação da mente humana x máquina. Certo dia foi fazer um exame médico rotineiro da empresa e percebeu que estava com seus óculos de grau no rosto e os de sol esquecidos na testa. Quando estamos num consultório médico reparamos que temos um corpo, um estranho momento este. Tirando-os da fronte, começou a perceber que estava ligado a uma grande quantidade de aparatos que não lhe eram próprios. Precisava de óculos de sol e grau ou lentes de contato, usava aparelho auditivo para um pequeno probleminha no ouvido esquerdo, dois pinos no braço por ter caído da escada, um aparelho dentário para corrigir a mordida, uma placa de platina na perna por um acidente de carro pouco tempo atrás... Além disto, usava um celular de última geração colado ao cinto da calça (com máquina digital, filmadora, internet, MP4, rádio FM), relógio de pulso com calculadora, despertador e cronômetro, chaves, pen drive, crachá, cartões para os mais diversos fins, i-pod no bolso e até palmilhas anatômicas. Ronaldo voltou para casa um pouco desconfortável. Uma leve sensação de pânico tomou-lhe o corpo ao imaginar que não conseguiria se livrar dos gadgets assim que quisesse. Usava-os, é verdade, e tornava-se um ser “melhorado” com eles, mas e se quisesse descartá-los? Não havia nascido com tudo isto, nem fora e muito menos dentro. Havia se tornado um ciborg e nem percebera. E se todas aquelas coisas se voltassem contra ele? Ele não queria mais pensar nisto, mas a imagem do seu descontrole sobre elas lhe causava mal estar. Sentia-se completamente livre no mundo virtual, era um paradoxo que do lado de cá da tela estivesse preso a um punhado de coisas. Pouco tempo antes se orgulhava de possuir um gps... Quem diria. A paranóia foi se agravando com o tempo. Não queria mais comer com os “equipamentos” garfo e faca, não usava mais guarda-chuva, evitava o mouse, estava se tornando cada dia mais esquisito. Brigava sozinho chegando às vezes, lamentavelmente, às vias de fato consigo mesmo. Pior. Ele começou a sentir, principalmente à noite, que seu espírito estava sendo engolido pela porção máquina que estava nele, era uma luta constante interior. Até dormir podia ser um problema, no momento em que baixasse a guarda, seus pinos poderiam tomar o poder e tudo estaria perdido. Sempre recebeu spam, mas agora as mensagens pareciam assustadoras e ele parou de conferir o e-mail e os sites. Isto foi o fim. O fim do mundo digital para ele. Estava desconectado, arrasado, acabado. Então surtou. Os vizinhos o recolheram da lata do lixo em que se enfiou e o levaram ao hospital. Nem tinha reparado que tinha vizinhos, e então, foi salvo por eles. As pessoas se unem na desgraça e com ele não foi diferente. Um último instinto de sobrevivência o fez melhorar de saúde. Um casal de velhinhos da casa do lado, a adolescente da casa da frente, o gordinho vendedor de carros do outro lado da rua, todos preocupados com aquele nerd esquisito. Medicado, conseguia esquecer dos aparatos e quase se tornou normal. Mas a sua placa de platina não se entregou facilmente e por vezes ainda faz um ataque surpresa. Ronaldo = Governador Misterioso (Germânico)