21/12/2010

Biblioteca Osni Régis



Não muito longe daqui
Entre prédios e automóveis
Existe um raro lugar
Desconhecido da maioria
Que argolada ao relógio ponto
E sempre na correria
(No mesmo percurso
Trilhado dia-a-dia)
Não percebe o portão de ferro
A placa, o caminho do lado
A bananeira cheirosa
O piado do sabiá
Não vê o reino escondido
Onde tudo é singular

A chuva derramada
Escorre como uma bênção
Pela vidraça entreaberta
No telhado e na calçada
Embala meu pensamento
Que se desprende do solo
E foge como o vento
Liberdade conquistada

Procuro logo um livro
Uma cadeira num canto
Ou mesmo um degrau de escada
Bem gostoso pra viajar

Biblioteca Prof. Osni Régis, Avenida Mauro Ramos, nº 1344, Centro/Florianópolis

Horário: de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h

Mais informações: (48) 3223 4833

17/12/2010

Mensagens do Além


Astride acreditava nas mensagens que o universo lhe lançava. Não só na propaganda comercial dirigida a “VOCÊ, amigo consumidor”, na proposta política ou qualquer *Conjunto de atos que têm por fim propagar uma idéia, opinião ou doutrina. Mais. Não só nas intuições de que isto ou aquilo não podia ser boa coisa ou aquela velha sensação de estar sendo ludibriada. Não. Toda mensagem de qualquer natureza que ela presenciasse fazia surtir um efeito amplificado na sua mente e ela não controlava mais seus passos. Sentia-se perdida no rol das mídias. Era influenciável e até se pode dizer supersticiosa, preconceituosa, consumista, crente. Acho que estou sendo gentil: ela era o próprio influxo em carne e osso. O fato é que alguma coisa nas palavras ou na imagem, nas cores, no tipo de texto, um momento de ansiedade talvez, algo acionava o gatilho da sua fraqueza e não tinha paz enquanto não buscasse o que mandava a mensagem.

A família e os poucos amigos cansaram de explicar, suplicar e esperar o seu despertar. Enfim começaram a dissuadi-la de sair, discretamente, com medo que fizesse alguma besteira maior, e foram tantas... Deixou o emprego. Quando se aprontava para ir ao mercado, pânico geral. Assim também, buscar a correspondência, passear com o cãozinho, reunião de bairro... Enfim, juntar as folhas no quintal ficou sendo a única coisa segura que restava para fazer no lado de fora da casa. Infelizmente, toda trama tem um ponto aberto. Aquele plano empírico não previu a invasão via aérea. As ondas sonoras! Novos desastres. Você sabe como uma cidade pode ter barulho, muito barulho...

Não havia nada mais a fazer: prendeu-se por vontade própria, Astride com todos os seus desejos, no trigésimo andar de um prédio velho, uma ilha sem terra, sem pontes para qualquer lugar. Um paraíso branco e silencioso instalado num ambiente anguloso. Calmaria. Mas o ruído começou baixinho de dentro pra fora, não muito tempo depois. O que era angelical tornou-se humano, somando no mínimo quatro pecados de sete, e por fim, simplesmente infernal. As paredes sussurravam coisas vagas. O ar soprava um hálito vazio. Os sonhos, estrangeiros, confundiam a sua mente fazendo sumir o sentido de tudo, mas não a ansiedade. Astride agüentou o quanto pôde. Enfim, empoleirou-se no muro da sacada, em meio à névoa distorcida do mapa urbano. Ali ficou por dias, meses, murmurando para o nada. A pele foi-se enrijecendo, os olhos fixos de gárgula sobre a imensidão cinzenta.

09/12/2010

Ainda sobre Mahagonny...

ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY, da obra de Bertolt Brecht com Direção de Carmen Fossari (04,05, 06 dez/2010 Teatro da UFSC). Uma peça envolvente no desenvolvimento, plasticamente interessante (ambientada nos anos 30), mas principalmente, aborda um tema universal, atemporal, tratado com ironias e verdades brutas: a cidade. A cidade com todos os seus dilemas. As relações entre as pessoas, interesses e crenças, a lei e o poder, o amor (?), o dinheiro e os vícios.

O texto foi criado originalmente para uma ópera. Traduzida e encenada, então se multiplica. Tem várias falas coletivas, um ritmo musical, planos de ação, vídeos e personagens memoráveis. Não dá para chamar de comédia nem tragédia. Uma sátira social? Sim, mas com poesia, razão + emoção. Uma obra considerada Épica. O público não se coloca no lugar do herói ou de outro personagem, é o teatro da não-catarse. Apesar disto, a peça tem um assunto que paira acima de todos, acima... ou nos seus estômagos.

Esteticamente, vi a figura da diretora como alguém que pinta uma tela ou como um maestro de orquestra. Não somente nesta obra, mas especialmente nela. Harmoniza os instrumentos para um resultado muito além de sua importância literária, subtextos ou crítica social. Arte.
Como personagem, sinto o peso de uma classe, sensação intensificada pelo texto trabalhado em grupo. Ali não sou um indivíduo, apesar de imaginar a história da personagem, explorar seus desejos, defeitos e (porque não?) virtudes. Mergulhar no mundo de Mahagonny é surreal. Espero que tenham gostado da peça, é um presente-surpresa.

O Caminho das Letras

*Ilustração de meu conto "Maria e a Maçã"


As horas não bastam para tantos projetos em andamento... Onde será que foi parar aquela sensação de paz pela manhã, ao abrir os olhos descansados... Que antes permaneciam assim ao menos até o café fazer o seu efeito? Ou à noite, quando na hora de deitar, conseguia-se ouvir um pouco de silêncio e os mesmos olhos iam cerrando-se para o mundo sólido e abrindo-se para o sutil? Aqueles lugares oníricos aonde vão os de pijamas, que não tem gravidade, não tem começo nem fim, o passado mistura-se ao presente e ao futuro, e mesmo assim tudo faz sentido? Não é possível que aqueles segundos que duravam tanto sejam os mesmos que agora se atropelam querendo chegar à frente, numa corrida desenfreada.

Foi num momento, numa fenda entre o tempo e o silêncio, que encontrei três pontos reticentes, muito bem guardados, onde as leis da física não agem. Ali dentro deles, o alfabeto se fez. O ritmo é da coisa pensada e não anda só para frente em marcha de linha reta. Não. Faz todo tipo de rodeio, dança um louco percurso, pulsa, descobre o mais escondido dos sentidos e se abre pra quem se dispuser a entrar. É só preciso uma dose de querer e uma outra de se dar.

Entrar ali, é como lembrar das escapadas furtivas para dentro do armário da minha mãe, roçando tecidos finos e perfumes de outros tempos. Sinistros, com a porta semi-aberta, os ruídos abafados pela grossa madeira. Na lateral, perfilavam cintinhos de pano e fitas, as cores podiam ser imaginadas. Tudo era distorcido do real. E aquele espelho, colado à porta por dentro, que mal refletia minha imagem, mostrava um novo universo, carroliano, inverso. Lá dentro sou canhota, não sinto dor nem medo e tenho certeza que sou muito mais bonita lá, sempre sorrindo, enfeitada. Uma perfeita rainha branca. De lá vêm todas as ambulâncias com suas letras ao contrário. E os linguados, que não preciso explicar por quê. É possível que de lá venham também as canções das baleias.

São destes lugares secretos que vêm as palavras, mas é preciso achar a fenda, que pode estar onde menos se espera. É ela que mostra o caminho, o Caminho das Letras.