30/09/2010

Os Sapatos do V'Omar



- Ela é tão mignon... – Diziam. Não era certamente um elogio, apenas uma constatação, falta do que dizer de uma criança sem graça e pequena. Marina nunca alcançou o peso ou altura das tabelas reguladoras de boa saúde. Ah os padrões, tantas vezes rompidos depois deste... A verdade é que daquela alturinha, tinha uma visão privilegiada das coisas ditas... menores. Coisas descartadas ao chão, defeitos nos ladrilhos coloridos, bichinhos rastejantes e suas tocas. E não se pode esquecer dos pés.

Várias expressões definem o estado de espírito ou características próprias através dos pés. “Pé de valsa”, por exemplo. E já se vê a pessoa deslizando pelo salão de dança. “Pé que é um leque”, uma pessoa animada, pronta para a ação. “Pé frio”, o azarado e “pé de chinelo” o pobretão. E assim vai. Os pés dão importantes mensagens e com eles, também os sapatos. Aqueles chegaram com malas. Eram bicolores, encerados e atados no tornozelo. O nome do dono deles era Omar, o avô que atravessou o mar, chegando mesmo do litoral. Veio de longe, de navio, foi o que disseram. Sapatos singulares aqueles, e vinham com cheiro de maresia, de areia molhada, de outro lugar. Com certeza, andaram por muitos caminhos, eram cheios de histórias pra contar.

A neta observava de longe aquele novo morador da casa, um estrangeiro alto de hábitos parcimoniosos, luz de velas e sapatos bicolores. Ele fazia questão destas coisas, não era deste tempo. Da mesma forma ela também era observada, aquela criaturinha séria e miúda que andava sem fazer ruído algum pela casa.

Uma noite, a menina fez um coelho de sombra para ele com as suas mãozinhas atrás de uma vela. Simularam pássaros, monstros, entre outras formas ininteligíveis que trouxeram para perto dele a infância já quase esquecida. Riram e brincaram noutra língua, numa língua não falada, apenas expressa entre risos e mãos. O avô mostrou seus livros e fotos que ficavam na mala escura, e uma concha rachada que de dentro ainda se podia ouvir o mar. A menina mostrou seu caderno de colagens e uma boneca de pano encardida, sua favorita. E naquela semana ficaram juntos como dois náufragos.
Da mesma forma que veio, ele se foi. Não podia ficar. Deixou a concha sobre a cama, para a menina ouvir seu sussurro entre as ondas do mar. Deixou também uma saudade que risca fininho no coração, que arde com a água salgada até sumir feito pegadas na areia.

27/09/2010

Fábula

E a cidade se estende, por dentro e por fora, num ir e vir sem fim. Sombras e luz, matéria e memória. E o novo se faz velho no momento seguinte em que se ergue, porque o novo já vem vindo sob a forma de projeto, brotando sem controle. E o velho já vai indo, desgastando quase sem notar. Perceber a cidade é uma experiência vívida que não se repete nunca. Não pode ser explicada porque precisa ser explorada individualmente através do espaço e do tempo, devido a sua dimensão e complexidade. A soma destas experiências forma a imagem plural da cidade, numa sobreposição de idéias com pontos em comum. Decifra-me ou devoro-te, diz a cidade com cabeça humana e corpo de bicho, e cumpre.

23/09/2010

Era uma vez no Pântano dos Gatos

Era uma vez no Pântano do Gatos
De Marina Carr
Dias 23, 24, 25 e 26 de Setembro, 21.00 Teatro da UFSC

Tradução : Alinne Fernandes (Queen´s University Belfast, Santander Universities Network)
Direção : Carmen Fossari
ELENCO:
Alê Borges – XAVIER CASSIDY, Ana Paula Lemos Souza - ESTER CISNÉIA, Antonieta Mercês - DONA MATTANORA, Cristiano Mello –AQUELE QUE ESPREITA ALMAS, Neusa Borges- MULHER GATO, Douglas Maçaneiro -CARTAGENO MATTANORA, Flora Moritz -JOSIANE MATTANORA, Simão Grubber- PADRE WILLOW, Marcia Cattoi – CAROLINE CASSIDY, A NOIVA, Marlon Casarotto - GARÇOM, Nathan Carvalho- GARÇOM, Roberto Moura – O FANTASMA DE JOSÉ CISNÉIA, Lechuza Kinski -MONICA MURRAY -A VIZINHA, CORO CORPO VOZ: Mariana Lapolli, Nei Perin, Bruno Leite, Muriel Martins, Rubia Medeiros, Silmara Grubber, Vanessa Grubber e Adenilse Venturieri

TÉCNICA:

Trabalho de Voz: IVE LUNA, Trabalho Corporal : MARIANA LAPOLLI, Professores da OPT: Augusto SOPRAN , ALEXANDRE PASSOS , SÉRGIO BESSA , IVE LUNA e CARMEN FOSSARI. Operador de Imagens: IVANA FOSSARILuz, Figurino: CALU, Efeitos:O GRUPO, Pesquisa Musical: SÉRGIO BESSA, Estagiário Assistente de Direção: Marlon Casarotto, Fotografia: Alinne Fernandes, Israel e Carmen Fossari
DIREÇÃO GERAL: CARMEN FOSSARI
Produção : PESQUISA TEATRO NOVO
Apoio: DAC-SECARTE
SEMANA DE ARTE OUSADA-UFSC-UDESC-2010
INFORMAÇÕES BLOG:
www.carmenfossari-armazemdapalavra.blogspot.com
Fone DAC: 3721-9349



Estou eu lá, fazendo outras coisas, mas "ela", a personagem, está sempre como uma sombra querendo entrar em mim com suas idéias, sua juventude por vezes irritante quando não cedo -Vou contar pro papai! - ela diz. Suas frases feitas surgem a qualquer momento. Interessante o processo de um ator não é? Esquizofrênico e às vezes até doloroso, por emprestar o corpo num deixa e não deixa que se embate por dentro. Exige-se a sua proximidade e logo, em nome da sanidade ou coisa que o valha, é preciso repelí-la! É interessante somar experiências de duas vidas com todas as suas nuances e não falo de outra coisa senão do teatro. Atores são maravilhosamente monstruosos, Jekyll & Hide...

16/09/2010

Encontro



No escuro
Olho de gato
No ar
Cheiro de mato
Proximidade
Contato

Abraço
Laço ardente
Um gesto
Unha e dente
Corporeidade
Demente

02/09/2010

Cataventos

A cada instante
Sopram os ventos
Inflam as velas
Dos meus pensamentos
E os cataventos
Giram giram giram

O Teatro se espalha ao redor do corpo como um turbilhão. Não apenas um, são vários pequenos, muitos, milhares. Devoram medos e devolvem forças, devoram forças e devolvem medos. Movem-se fazendo você se mover. Expressar. Flutuar. Expandir. Contrair até quase sumir. Um banho em ritual, te faz voltar ao normal, é o que diz o professor Alexandre em sua sabedoria. Será?