19/05/2011

Óculo

Martha olhava pela janela. Sua vida se resumia nisso. Nunca saía porta afora, assistindo à vida urbana do alto de um sobrado, através da janela redonda apontada para o oeste. Era um antigo vitral colorido, com uma armação de ferro, muito comum naquele lugarejo. No lusco-fusco da tarde, com um secreto deleite, chegava ao óculo e admirava a tarde tornar-se noite, com todos os seus matizes brasis.

Ela se sentia rainha, vendo o mundo de cima, decidindo a vida dos outros, como se fosse possível. Quase sempre a mesma cena: as crianças, as roupas no varal, o movimento suburbano de retorno às casas, bicicletas, um cão que late, o dia morrendo sobre os telhados e as sombras tomando conta de tudo. Seus olhos já cansados da rotina diária e ritualística, da insanidade seca e solitária, vislumbravam personagens imaginários. Acenava para os lençóis coloridos da vizinhança, estendidos ao vento, como se fossem princesas que chegavam de um passeio para se recolherem antes do anoitecer. Pipas eram sereias aladas, com seus rabos serpenteando pelo céu, tentando arremeter contra as crianças gritalhonas da vila. Um poste de esquina, nem sempre aceso e por vezes faiscante, era um mensageiro alto e magro trazendo notícias de outras terras, que ela interpretava a seu bel-prazer.

No horário marcado, Martha regia tudo à rua da frente feito uma maestrina. Nos dias de chuva, baldes se derramavam do céu para lavar os pensamentos impuros do mundo, que se impregnavam nas coisas visíveis. Raios para queimar os mais insistentes. Mas era quando o sol descia vermelho, em tempos de estiagem, que aquela senhora experimentava um sentimento romântico e tão verdadeiro quanto a sua imaginação. Um bravo cavaleiro com armadura de fogo cavalgava no horizonte até sumir. Vivenciar aquilo era o que lhe bastava para encher os sonhos de nostálgicas meias-lembranças. E como sempre acontecia pela manhã, nada mais restava em sua volátil e seletiva memória.

Foi num destes dias de sol vermelho que imprudentemente bateu com a bengala no ferro da janela, provocando uma vibração que a estilhaçou por completo. Vendo aquilo, instantaneamente a senhora teve consciência de todos os seus dias à beira do vitral. O vidro quebrou-se, e com ele, a distorção. Rompido, deixou um novo ar entrar no seu corpo, uma nova luz. A cena daquele vidro quebrado aos seus pés e a verdadeira imagem do lado de fora, trouxe-lhe a consciência de si mesma e a necessidade urgente de encerrar o ciclo.

O mundo não é o mundo senão por nosso olhar sobre ele. Martha ousou abrir a sua porta, há tanto tempo cerrada. E caminhou majestosa em direção contrária ao seu cavaleiro fugidio. Andou na linha da estrada, em busca de alguma coisa, a lucidez talvez, o nada, quem sabe.

*Martha = Dona da Casa em Aramaico