23/03/2011

Céu?


- Mãeeeeee! Quem é esta pessoa na foto do porta-retrato?

- É o vô Antônio.

- É outro avô? Eu já tenho dois.

- Não, é o avô do seu pai. É seu bisavô.

- Ah, e como eu não conheço ele? Onde ele mora?

- Hmmm, ele mora no céu. É tão longe que você não pode ir.

- Mas mãe, eu quero ir no céu...ver o meu bisavô...

Maurício tem cinco anos e não dá uma folga. Quer saber tudo: onde, porquê, quando, como. E se uma coisa está mal explicada, ele persiste nos questionamentos.

- Mãe, mas como alguém pode morar no céu, lá só tem nuvem. E às vezes nem tem. Só se fosse um astronauta...Hehe, imagina só o meu bisavô num foguete espacial.

- Bom, ééééé...ããããã...Ele botou uma escada e foi morar lá. É muito bonito lá, tem tudo o que ele precisa...

- Como é que você sabe? Já foi lá na casa dele?

- Bom, eu não fui, mas dizem que é assim, bonito.

- Quem falou isto, é alguém confiável?

- Ai, menino, deixa de tanta pergunta e vê se dorme que está tarde. Quem te ensinou esta palavra: “confiável”? Esse menino...

- Eu vi na TV, mas não muda de assunto, mãe.

- Vamos dormir, outra hora eu te explico.

No outro dia, o porta-retrato desaparece da sala, para evitar um novo interrogatório.

- Pai, você pegou a fotografia que estava aqui ainda ontem?

- Não, Maurício, por quê?

- Como eu não conheço o meu bisavô Antônio? Aquele da fotografia...

- Ele já morreu. – Diz o pai distraído com o jornal da manhã.

- Morreu? A mãe disse que o bisavô da foto foi morar no céu! O que você acha?

- Ah, ela disse isto? Então foi isto mesmo que aconteceu.

- Ele morreu primeiro e depois foi ou quem sabe já morreu no céu? No meu videogame posso morrer várias vezes. O meu bisavô jogava também?

- Hmmm, estou meio atrasado agora, depois a tua mãe vai explicar direitinho, viu?

O menino não desiste fácil. Deixa passar uns dias e volta a falar sobre o assunto delicado.

- Mãe, me explica o tal negócio de morar no céu?

A mãe respira fundo e resolve que era hora de ter aquela conversa definitiva.

- Acontece assim: no céu ficam todos os bebês. Daí um é escolhido e vem morar com uma família na Terra. Ele cresce e fica um menino, depois um homem até virar pai, avô e depois um bisavô. Quando ele não pode mais crescer porque está muito velhinho e cansado, ele volta pro céu, de onde veio.

- Mãe, deixa disso. A pessoa que morre vai pro cemitério, é enterrada e acabou. O Juninho me contou ontem.

- Hmmm, sim, é verdade. Ele morreu e foi enterrado. Mas nós acreditamos que uma parte, o anjinho que mora na gente, fica vivo. Hmmm... é mais ou menos assim.

- Mãe, então tem um anjo que mora dentro de mim e que quando eu morrer ele ainda vai sair inteirinho e feliz da vida pro céu? Essa não!

- Não, Maurício, este anjinho é você mesmo!

- Ta mãe, deixa pra lá que o Juninho ta mais por dentro que você nesta história.

A mãe não se dá por vencida.

- Você é muito pequeno pra entender tudo, quando crescer vai entender melhor.

Mais uns dias e o menino brinca no pátio, montando uma arapuca. O pai vem para ajudá-lo.

- Quer pegar um passarinho, filho?

- Não, um anjinho safado que vai me sacanear quando eu ficar bisavô.

Nenhum comentário:

Postar um comentário