31/03/2011

A VOLTA

Era um homem normal. Claro, tinha certos defeitos: o egoísmo que herdou do pai, uma dose de avareza, que lhe causava insônia... Também tinha lá seus problemas de relacionamento, pois era extremamente metódico. Além disso, sentia inveja dos irmãos, todos muito bem sucedidos, o que causou paulatinamente o afastamento dele com a família e uma boa gastrite. Mas nem por isso podia ser considerado um homem mau ou miserável, era apenas um homem, na verdadeira acepção da palavra, atormentado pela competitiva e desgastante vida moderna. Formou-se em biblioteconomia e trabalhava numa pequena biblioteca na escola do bairro, apesar de nunca ter-se interessado por literatura, ou por crianças... Sua atenção estava focada apenas na ciência do arquivamento.

Conseguiu um pouco de estabilidade emocional com a idade, mas o casamento, embora tardio, foi o que lhe trouxe mais tranqüilidade. A esposa, uma mulher incorruptível, de hábitos franciscanos e atitudes irrepreensíveis, era também muito trabalhadora. Passava roupas para completar o orçamento da casa. Era tímida, porém amável. Não tiveram filhos. E tudo andou bem por vinte e dois anos, quando completaram suas Bodas de Louça. Sim, de Louça. Provavelmente este nome seja devido a um dado estatístico, que quando se completa vinte e dois anos de casamento, uma época “frágil” se inicia. E realmente, foi por volta desta data que tudo se quebrou.

Era noite, ele assistia TV e a esposa escolhia silenciosamente meio quilo de feijão quando, inesperadamente, ela abriu a boca e gritou como nunca antes em sua vida. Jogou tudo para o alto e saiu porta afora para nunca mais voltar. Atônito, ele ficou parado durante horas, olhando praqueles feijões esparramados pelo chão, no meio da louça quebrada, como se ali fosse encontrar a razão para tal comportamento. Ela sumiu, dizem que foi embora para o México, ninguém sabe ao certo o seu paradeiro. Sem compreender nada, ele aguardava. Cauteloso, dizia pra si mesmo que tudo o que vai, volta, tudo o que abre, fecha, e assim por diante.

Depois daquele fato, ele foi se tornando um homem solitário e desconfiado. Confinou-se ainda mais na sua mania de rotular as coisas, fazer listas, contar o tempo, esterilizar a casa. Fechou-se cada vez mais no seu mundo particular e resolveu dedicar o tempo livre para ler e reler a sua coleção de clássicos da literatura que até então, só servira para enfeitar a sala. A coleção fora presente de uma tia, quando completara 15 anos e ele nunca abrira sequer uma página até agora. Surpreso, gostou da experiência. Ali dentro daquelas narrativas foi-se sentindo mais vivo e, com o tempo, mais seguro: toda trama tinha começo, meio e fim, diferente da sua própria história, que considerava inacabada.

Ao fim de cada leitura, repetia para si: tudo o que vai, volta. Esta frase foi se tornando um mantra e a idéia se alastrou devagar para todo e qualquer pensamento. O que no princípio lhe trazia conforto começou a se tornar perturbador. Na sua casa, as coisas tinham um lugar demarcado para serem retiradas, usadas e voltarem ao lugar. Mas num âmbito maior? E de onde tinham vindo? O lugar delas não fora eternamente o armário dele, nem o supermercado, nem o depósito ou a fábrica. E se todas as coisas voltassem às origens? Este panorama preocupou-o, agravando sua insônia. À noite, a idéia pegava-o mais desprevenido e então, passou a ouvir sons pela casa, principalmente na sala. Era um farfalhar ligeiro de quando em quando.

Tudo o que vai, volta. Sabia que tinha a ver com o novo foco de sua vida, mas não podia crer quando descobriu do que se tratava: seus livros começaram a criar folhas e raízes: estavam voltando a ser árvores. Eucaliptos, pinheiros e bambus. Árvores, cada vez maiores, uma floresta inteira buscando enraizar-se entre os tacos de parquet e acima, galhos perfurando o forro! A sua coleção de clássicos! Transtornado, mergulhado na insensatez, voltou ele também às origens, imaginando-se barro e depois pó. Estranhamente, aquilo finalmente lhe trouxe paz, quase um estado de graça. Voltou para a cama relaxado e dormiu finalmente o sono dos justos. Tudo o que vai, volta.

23/03/2011

Céu?


- Mãeeeeee! Quem é esta pessoa na foto do porta-retrato?

- É o vô Antônio.

- É outro avô? Eu já tenho dois.

- Não, é o avô do seu pai. É seu bisavô.

- Ah, e como eu não conheço ele? Onde ele mora?

- Hmmm, ele mora no céu. É tão longe que você não pode ir.

- Mas mãe, eu quero ir no céu...ver o meu bisavô...

Maurício tem cinco anos e não dá uma folga. Quer saber tudo: onde, porquê, quando, como. E se uma coisa está mal explicada, ele persiste nos questionamentos.

- Mãe, mas como alguém pode morar no céu, lá só tem nuvem. E às vezes nem tem. Só se fosse um astronauta...Hehe, imagina só o meu bisavô num foguete espacial.

- Bom, ééééé...ããããã...Ele botou uma escada e foi morar lá. É muito bonito lá, tem tudo o que ele precisa...

- Como é que você sabe? Já foi lá na casa dele?

- Bom, eu não fui, mas dizem que é assim, bonito.

- Quem falou isto, é alguém confiável?

- Ai, menino, deixa de tanta pergunta e vê se dorme que está tarde. Quem te ensinou esta palavra: “confiável”? Esse menino...

- Eu vi na TV, mas não muda de assunto, mãe.

- Vamos dormir, outra hora eu te explico.

No outro dia, o porta-retrato desaparece da sala, para evitar um novo interrogatório.

- Pai, você pegou a fotografia que estava aqui ainda ontem?

- Não, Maurício, por quê?

- Como eu não conheço o meu bisavô Antônio? Aquele da fotografia...

- Ele já morreu. – Diz o pai distraído com o jornal da manhã.

- Morreu? A mãe disse que o bisavô da foto foi morar no céu! O que você acha?

- Ah, ela disse isto? Então foi isto mesmo que aconteceu.

- Ele morreu primeiro e depois foi ou quem sabe já morreu no céu? No meu videogame posso morrer várias vezes. O meu bisavô jogava também?

- Hmmm, estou meio atrasado agora, depois a tua mãe vai explicar direitinho, viu?

O menino não desiste fácil. Deixa passar uns dias e volta a falar sobre o assunto delicado.

- Mãe, me explica o tal negócio de morar no céu?

A mãe respira fundo e resolve que era hora de ter aquela conversa definitiva.

- Acontece assim: no céu ficam todos os bebês. Daí um é escolhido e vem morar com uma família na Terra. Ele cresce e fica um menino, depois um homem até virar pai, avô e depois um bisavô. Quando ele não pode mais crescer porque está muito velhinho e cansado, ele volta pro céu, de onde veio.

- Mãe, deixa disso. A pessoa que morre vai pro cemitério, é enterrada e acabou. O Juninho me contou ontem.

- Hmmm, sim, é verdade. Ele morreu e foi enterrado. Mas nós acreditamos que uma parte, o anjinho que mora na gente, fica vivo. Hmmm... é mais ou menos assim.

- Mãe, então tem um anjo que mora dentro de mim e que quando eu morrer ele ainda vai sair inteirinho e feliz da vida pro céu? Essa não!

- Não, Maurício, este anjinho é você mesmo!

- Ta mãe, deixa pra lá que o Juninho ta mais por dentro que você nesta história.

A mãe não se dá por vencida.

- Você é muito pequeno pra entender tudo, quando crescer vai entender melhor.

Mais uns dias e o menino brinca no pátio, montando uma arapuca. O pai vem para ajudá-lo.

- Quer pegar um passarinho, filho?

- Não, um anjinho safado que vai me sacanear quando eu ficar bisavô.

17/03/2011

GAIOLA



Olho pra dentro
Um rio de lava
Do lado de fora
Um mar de ruídos
No limiar uma trava


Quero dizer mais
Ativar o vulcão
Verbalizo
Meias-palavras
Noutra direção

Vôo em redemoinho
Cores numa pintura
A mão busca a palavra
Escrevo pouco

Abreviatura