19/02/2011

RUMO


Estava sentada na estação de trem, vestindo roupas apropriadas, simples e bem cortadas, com malas à volta. Por um momento a coisa toda lhe escapou da razão. Um piscar de olhos e... Nada. Em sua mente, estava lá: a infância num sítio junto à família, a juventude no colégio de freiras, as coisas corriqueiras e imprescindíveis como a linguagem e a noção de ser alguém com um concreto passado. Também tinha consciência das coisas que possuía, podia enumerá-las, que não eram tantas... Mas o principal, o exato momento anterior lhe fugia. Abalou-se, mas não queria chamar atenção. Denunciando-lhe, apenas uma gota de suor descendo pela têmpora, ao que ela limpou rapidamente. Olhou para os lados, fingiu certezas.

Reconhecia suas roupas e aquelas malas velhas, que ganhara de sua avó. Uma senhora miúda, de origem portuguesa, que vira mais coisas na vida do que cabiam em seus pequenos olhos. Acima de tudo, vira o tempo, coisa que a jovem viajante não tivera tempo de fazer. Engraçado isso, sem tempo de ver o tempo... É preciso percorrê-lo, pensou. Caminhar sobre ele. Até mesmo, desfiar a sua linha, a linha do tempo. Com certeza sem desfiá-lo, não se pode senti-lo inteiramente, o seu pulso. Arrumou-se no banco e abriu a frasqueira que estava ao lado, na esperança de que alguma coisa lhe desse o rumo: se estava de chegada ou de partida.

Encontrou ali dentro pequenas coisas, que manuseou com carinho. Um cuidado de quem mexe naquilo que não é seu. Sorriu, ao ver uma concha do mar, que ganhara de um amigo vindo de longe. Passou os dedos sobre as rugosidades, que assim, fora do contexto marinho, não parecia terem sido criadas para outra finalidade, senão o deleite do tato. Abriu um relógio antigo, onde estava gravado o nome do seu bisavô. Lembrou-se vagamente do contato com ele na primeira infância, um grande bigode e a fala mansa lhe roçou a orelha, sussurrando um conto.

Outros objetos contidos ali, lhe desafiaram a memória, ao que ela respondeu positivamente. Um recibo numerado, porém, com horário marcado para partida em dez minutos, trouxe a certeza de que estava de saída. Tanto melhor, assim poderia exercitar, sobre o trilho do trem e o pulso dos dormentes, a consciência de si mesma, desfiar o tempo um pouco mais.

2 comentários:

  1. Vira mais coisas na vida do que cabiam em seus pequenos olhos. que lindo!!! Isso é Marcia Cattoi
    Frases claras e tocante.
    Saudades
    Bjs

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  2. IMAGINE
    a capacidade dos seres humanos de adquirir, conservar e evocar informações através de dispositivos neurobiológicos e da interação social.
    Belo texto, amiga Márcia.
    Bjo
    Anto

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