24/01/2011

O Pássaro Amarelo



Era uma vez um importante empresário que era aficionado por pássaros. Na cidade só os via de relance, numa pequena loja próxima de sua empresa, sobrevivendo de migalhas em suas gaiolas apertadas. Apesar de ter alcançado o sucesso nos negócios, espelhava-se neles, imaginando uma vida melhor em outro lugar. Adorava vê-los soltos na natureza, nas raras vezes em que tirou férias. Aspirava um sentimento semelhante de leveza, expansão. Liberdade anímica.

Decidiu aposentar-se e redirecionar totalmente a sua vida. Comprou uma casa no meio de uma floresta e mudou-se para lá. Comprou livros e equipamentos sobre o assunto preferido: ornitologia. Nada superava a felicidade de vê-los na mata. Gostava de perceber como alguns pulam em vez de andar, como alguns batem o alimento no tronco antes de engolir, como faz cada espécie instintivamente seu ninho, sempre da mesma forma não importa em que lado do planeta esteja. E o canto, ah o canto era o primeiro item a ser percebido por ele. Mas era na simplicidade de observá-los soltos em vôo ou harmoniosos, dispostos sobre um galho de árvore, que ele sentia um tipo de prazer estético. O mesmo que se sente frente a uma obra de arte, onde uma descarga elétrica que vem do estômago, vai tomando os membros inferiores “retirando o tapete do chão”. Depois invade os superiores causando certo formigamento, um quase-pânico. Chega ao pulmão, obrigando-o a tomar fôlego antes que o coração pare e então, se aloja por um momento infinito na garganta. Engole-se quase em seco num misto de inveja e medo, alegria e plenitude. Por que não criei isto eu mesmo já que fazia parte de mim desde sempre? O que é isto que me desestrutura e me completa ao mesmo tempo? Como isto me faz rir as entranhas? Onde eu estava adormecido que isto me acorda? E então, a coisa invade a mente, que antes de sucumbir à loucura, infelizmente (ou felizmente), classifica, rotula, fragmenta, descreve, e retêm, na sua fome de mais. Ou talvez, guarda numa “gaveta” para alguma aplicação prática no futuro (?!)

Um dia, este homem resolveu excursionar por uma parte da mata mais fechada e desconhecida. Caminhou e acampou por dias como sempre gostava de fazer. Camuflava-se com folhas sobre a roupa e o chapéu para não assustar os animais. Podia ficar horas na mesma posição para ver algum espécime voltar ao ninho com alimento para os filhotes.
Chegando a uma clareira, vê ao longe, no céu, uma ave, mais impressionante do que tudo o que já tinha visto. Ela parecia possuir escamas a brilhar ao sol em mil tons de amarelo. Com seu binóculo observou maravilhosas asas, o corpo vigoroso, o bico delicado. Parecia brincar com as correntes ascendentes por longos minutos. E desceu para uma árvore próxima. Pela primeira vez na sua vida de observador e libertário, desejou possuí-la. A ave percebeu a sua presença e por algum tempo ficou observando seu oponente. Depois voou para longe. Ele se viu como um lince a esquivar-se pelos galhos imaginando artifícios para capturá-la. O homem desceu da árvore, caminhou rapidamente pela floresta, voltou à casa e fez a mala para voltar à cidade grande, onde era seu lugar de predador.

2 comentários:

  1. M a r a v i l h o s o!!!
    Quanta sensibilidade!
    Parabéns, amiga

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  2. Que Lindo!!!
    Como descreves tão bem essas sensações de quando vemos uma obra de arte.
    Parabéns, Marcita

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