28/10/2011

Jardim X Calçada

Renata era uma mulher obstinada com a sua casa. Mais que higienização, esterilização. Os objetos em disposição simétrica, eletrodomésticos combinados e reluzentes. Assim também era sua aparência, até o último fio de cabelo. Viuvou cedo. Com uma boa pensão, dedicava-se ao lar, como que esperando algo de bom acontecer na sua vida. Depois da tempestade sempre vem a bonança, dizem. E ela esperava.

O jardim era a parte da casa que mais merecia sua dedicação. Um trabalho excepcional para um resultado excepcional: ela adorava esta combinação. Via de longe uma folha caída, uma erva daninha brotando, uma gramínea nascendo meio torta. Na sua rua, era um exemplo, uma referência do que se podia fazer em termos de jardinagem sobre uma terra arenosa. Ela se orgulhava em ver que o seu jardim se destacava frente aos outros. Estufava o peito ao passar na sua rua.

Acontece que chegou um novo morador na casa da frente, o seu Anísio. Agradável, boa pinta, caprichoso, reformou a casa e começou a reativar o jardim. Ele também tinha tempo, pois estava aposentado e gostava muito de mexer na terra. Como não tinha muito espaço, dedicou-se também à calçada. Plantou duas quaresmeiras, fez um caminho de seixos claros e flores em volta. Ele tinha o dom, o “dedo verde” e muito bom gosto na escolha do que plantar. O que ela conseguia a muito custo, com trabalho suado, ele simplesmente jogava a semente. Tudo florescia rapidamente.

Renata via da sua janela, aquele jardim na calçada, desenvolvendo-se rapidamente! Simpático, distribuía trevos de quatro folhas em sinal de boa sorte. Ela correu à floricultura e encomendou algumas espécies exóticas, para não perder o posto de melhor jardim da rua. Enquanto ela buscava vencer a batalha imaginária pela extravagância, que salta aos olhos, seu jardim foi ficando lotado, desequilibrado, extenuado. As plantas grandes faziam sombra nas menores, matando as flores e o gramado, não importa o que se fizesse. Trepadeiras do estrangeiro trouxeram pragas e subiram nas árvores sem que ela percebesse, pois estava tentando salvar as roseiras dos bichos e as calhas do entupimento.

O trabalho de Renata estava duplamente exaustivo e por isto não conseguia mais cuidar da aparência, nada lhe dava prazer. Se antes trabalhava pra “ganhar”, agora apenas trabalhava para não sucumbir. Saía mesmo de pijamas para fora, subia nas árvores, arranhando-se e sujando-se totalmente. Cansada, certo dia, realizando uma poda difícil, caiu da árvore e ali ficou. Uma chuva veio muito forte e ela continuou ali. Sentia-se poluída por fora e por dentro. A chuva lavou seus ferimentos e seu coração. A terra ofereceu-se macia para uma trégua. O mato acariciou-lhe os cabelos e o rosto. O céu surgiu estrelado após a chuva e ela pôde ouvir a natureza na sua linguagem mais pura. E finalmente fez parte dela, como tinha que ser. Ficou ali até quase de manhã.

Enfim, levantou-se já o sol no rosto, muito relaxada e feliz. Seu vizinho a esperava no portão, com uma pá na mão e uma vassoura na outra.

RENATA: Renascida em Latim

ANÍSIO: Completo, perfeito em Grego.

15/09/2011

A Tartaruguinha Tatá




O lançamento do livro infantil “A Tartaruguinha Tatá” de Antonieta Mercês com ilustrações minhas, ocorreu durante a 2ª Feira do Livro e da Arte, em Ganchos do Meio, (município de Governador Celso Ramos), agosto de 2011.
A Editora é a
PANDION, de Florianópolis. Os livros podem ser encontrados a venda na internet editorapandion@editorapandion.com.br e em livrarias: Catarinense, Nobel, Livros&Livros, entre outras. Mergulhe na história da pequena tartaruga marinha Tatá, que passa por muitas aventuras para encontrar a mamãe e os irmãos.

12/09/2011

A Imagem

Tomás era uma pessoa comum. Classe média, amigos, futebol, uma vida regrada e absolutamente usual. Não era ambicioso, nunca se apaixonou, nunca fez nada contra nem a favor de ninguém... Mesmo perto dos quarenta, morava com a mãe, na antiga casa da família. Era mais prático, ela se sentia útil e ele, confortavelmente instalado. Como qualquer um, tinha lá seus problemas em casa, no trabalho, seus traumas do colégio, suas questões existenciais. Normal. Mas um fato em sua vida mudou por completo aquela existência medíocre.

Como todo dia, acordou, tomou um banho, fez a barba, vestiu-se e desceu para conferir a correspondência. Ao passar pela sala de estar, parou em frente ao espelho sobre a lareira e admirou a sua imagem. Talvez sob o efeito da linda moldura dourada século XVIII, ou talvez a proximidade dos óleos sobre tela de seus ancestrais na parede, os rostos austeros e confiáveis. Talvez a luz que vinha da janela, filtrada por uma cortina semi-aberta. Sim, definitivamente a iluminação faz diferença. Um raio luminoso incidia diretamente em seu rosto, produzindo um efeito misterioso, como nos filmes noir.

Da mesma forma que acordando de um sono profundo, ele se olhou demoradamente e aos poucos os sinais apareceram. O coração disparado, o rosto corado, as pupilas dilatadas em olhos brilhantes. Admirou o queixo bem formado, a boca, os olhos castanhos e bem emoldurados pela grossa sobrancelha, o nariz grego, a face, o cabelo molhado e displicentemente ajeitado com os dedos caindo sobre a testa. Adonis, nada menos. Tomás apaixonou-se pela própria imagem. Uma insanidade! - Poderia dizer qualquer pessoa. Mas, afinal onde está a linha que a separa da sanidade? Uma leve inclinação e... Pronto! Andamos pelo universo paralelo da loucura? Quem pode julgar onde atravessa esta linha, já que somos todos humanos e passíveis de “leves inclinações”?

O dia no trabalho transcorreu lento. Não conseguia se concentrar, nada mais importava. Aos colegas, apenas monossílabos. Contou horas e minutos para voltar àquele lugar à frente do espelho da lareira e encontrar novamente a imagem do outro lado. Como se ela não estivesse lá sempre no mesmo instante em que ele estivesse cá. Como se o seu reflexo não fosse o mesmo em qualquer superfície espelhada. Estremecia ao imaginar que um atraso pudesse botar tudo a perder, o tempo parecia ter que estar perfeitamente ajustado. Neste dia aprendeu a sofrer. O medo da perda, o tempo estendido pelo simples fato de querer que ele passasse rapidamente. A dor da ausência, uma dor física, localizada no meio do peito. E a cabeça a perder o fio do pensamento...

Enfim acabou o expediente e Tomás podia retornar para casa. Aproveitou cada segundo do caminho, ouvia sua respiração e percebia o coração batendo, o mundo estava girando ao seu redor. Sentia-se vivo pela primeira vez, desejava a vida como nunca desejara antes. Andando sozinho, sorria enquanto esfregava as mãos nervosamente e brincava de lembrar dos quadros ao redor do espelho. Chegando em casa, ainda fez algum suspense, fingindo desinteresse. Conversou brevemente com a mãe, comeu uma maçã, banhou-se e andou vagarosamente para o local desejado. Ah, encontro benigno e apaziguador. Entidade fantástica das esferas celestes, deus dos deuses. Experimentar tal sensação é a razão da existência humana.

Não quis jantar e ali ficou até adormecer, entorpecido com a imagem e o sentimento que causava. Amanhecendo, Tomás espreguiça-se longamente, ainda com a sensação de plenitude e completa bem-aventurança. Aos poucos percebe que há algo estranho... Oh, ele está do lado errado do espelho e seu corpo está caído do lado de cá! De dentro do espelho, vê sua mãe chorando e comentando com os paramédicos que o avô, o pai e agora o filho, faleceram cedo, exatamente assim, naquela sala.

Desolada, a mãe vende a casa com tudo dentro e vai morar no litoral, como sempre quis. Tomás não compreende como isto pode ter acontecido, tenta em vão pôr ordem nos seus pensamentos. Isto já é muito difícil do lado de cá, imagine lá, onde o tempo não corre da mesma forma, a imagem é inversa e o espaço é diferente: Nada existe fora daquilo que aparece no espelho, há somente aquela sala no meio do nada.

Tomás teve tempo de pensar na sua curta existência, mas estava satisfeito por ter tido a sublime experiência do amor ao menos uma vez. Relaxado e feliz, ele foi se esvaindo, desaparecendo, sumindo. Mas ainda pôde ver o novo dono da casa chegando com as suas coisas e não demorou a perceber aquele olhar fixo e brilhante sobre o espelho.

Tomás = Gêmeo em Aramaico

24/08/2011

Chuvas de inverno 1


Uma luz indireta

um pincel cheio de tinta

uma idéia incompleta



Escorre a água lá fora

por que não chove uma idéia

colorida e sem demora?


09/07/2011

Monólogo: O INSONE - O Jantar – Cena2

Não se pode dizer que não plantei - tudo o que hoje colho... Está escrito assim. (Onde? Sei lá, em algum lugar).

A colheita se dá segundo a semeadura!

Que frase hein! Eu poderia tê-la escrito. Ahhhhhh, enfim, não é uma frase tão boa assim. É horrível, na realidade. Faz a gente tremer só de pensar no que ela pode implicar. O meeeeeedooooo... Do futuuuuurooooooo... Melhor seria não fazer nada então, se for dar cada passo e pensar que poderia ser noutra direção. Que esta outra direção traria melhor sorte, ou ao menos, prejuízo menor. Mas não consigo me livrar dessa idéia durante a noite...

Colheita... Isso me dá fome... Só porque não durmo e fico aqui a vagar entre o sono e a vigília não quer dizer que eu possa ficar citando frases, como se fossem minhas e tal. Conceitos que me enfiaram na cabeça no tempo de escola. A cena é: eu, aqui, no meio da cozinha, perto de uma da manhã, preparando uma refeição como se fosse uma da tarde e divagando sobre frases feitas, lacrimejando com uma cebola cortada... Patético.

Não gosto de lâmpadas, prefiro as velas, são mais companheiras e se as toco, posso me queimar. Gosto disso. Talvez porque tem a ver com a “minha” idéia de que o que se planta se colhe, e se mexo com fogo me queimo. Todas as coisas deveriam provocar algo, não serem somente uma massa disforme passando através de nós. Sem rastros nem... Conseqüências... Por falar em fogo, onde guardei a pimenta?

Esta casa enorme e centenária, certamente já abrigou muita gente nos seus cômodos. Quem sabe até... comemorações? Nesta mesma cozinha? Pessoas de todo jeito? Com licença, por favor, como vai a família, blá blá blá... E servem muito vinho... Eu brindo a isto! Posso ver seus rastros nas madeiras lustradas de tanto atrito, apenas por seus caminhares. E pequenas marcas nas paredes, vindas de outros tempos, lascados diminutos que deixam aparentes as camadas inferiores, pequenos olhos da matéria que nunca se fecham e nunca deixam de espreitar os homens. Especialmente à noite.

Entre as cortinas fechadas, ouço cães na rua e mais nada. Talvez eu os alimente depois, para que nunca deixem de uivar na noite vazia. Ecos apenas, da solidão das calçadas. Dorme a cidade, mas não os seus ecos.

28/06/2011

Monólogo: O INSONE

Está caindo a tarde, como sempre acontece; chega o fim do dia, anoitece, como tem que ser. Preciso admitir que neste horário, assim que o sol baixa e amarela, começo a me agitar. É hora de começar a pensar na longa noite que se aproxima. Descanso para os outros, enquanto que eu... Eu não tenho sono, a noite me acorda com sua quietude. Nem a morte deve ser tão silenciosa! Quando as sombras aparecem e se encompridam pelas paredes, inicia a minha triste jornada noturna. Triste? Não tenho certeza se pode ser considerada assim, penso que não. Melancólica talvez, porque o silêncio que se instala me faz meditar sobre a vida e se torna impossível não rever os maus passos, remoer o arrependimento de não ter sido o que poderia.

Quando aparentemente tudo convida a deitar e dormir, ando pelos cômodos da casa, reviro gavetas e armários, os de matéria e os imateriais. Sempre encontro algumas coisas perdidas, que coloco em outro lugar, esquecendo-me logo em seguida. Não deveria guardar tantas rolhas de garrafa, envelopes (quem ainda escreve cartas hoje em dia?), botões encardidos, esperanças e ressentimentos. Sempre penso que posso precisar usá-los novamente sabe-se lá onde, ou quando. Ou simplesmente, não consigo achar um lugar perfeito, onde se encaixem.

Assim que as pernas e a mente cansam de vagar, sento-me nas escadarias e converso com as personagens retratadas a óleo, sobre a minha cabeça. São tão respeitáveis. Quantas coisas eu confesso ali... E como são gentis em não comentar nada, apenas ouvindo-me com toda a atenção! Desfio um rosário inteiro, nunca imaginei que tivesse tantas questões martelando-me a cabeça... Não imagino que as outras pessoas tenham tantas... Não é para menos que eu não tenha sono...

Talvez por estarem cansadas da minha ladainha periódica, as personagens ultimamente estão começando a dar alguns “pitacos”, completamente contra toda ordem estabelecida. É a primeira lei da casa: as pinturas devem ser resignadas – ponto. Não é permitido nem torcer o nariz! Hmmm Mas acho que sei quando a rebeldia começou... Foi quando comprei aquela tela de Napoleão no Mercado Livre. Disseram-me que era falsa, mas não acreditei, comprei-a justamente por sua veracidade. Paguei uma nota. Tudo nela parecia nobre: a expressão, a postura, a antiguidade da tela, as pinceladas... Mas só parecia... Estou ar-ra-sa-do. E para completar, como se não fosse o bastante, seus comentários irônicos sobre as minhas mais profundas verdades são todos em espanhol...

03/06/2011

Nume

Abílio era fotógrafo. Oferecia seus serviços de porta em porta, percorrendo toda região interiorana onde vivia. Gostava da profissão e registrava como ninguém a expressão mais autêntica do modelo, bastando-lhe para isto um dedo de prosa e uma rápida observação dos detalhes. Com os sentidos aguçados, ele analisava rapidamente a luz, a melhor lente, o entorno. Toda objetiva possui um sistema similar à pupila do olho humano, em forma de íris. Abre e fecha conforme a luz. Pronto. Ele capturava o espírito das pessoas nas suas retinas tecnológicas há 40 anos. Fazia tudo com apurada técnica e dedicação ao trabalho: retratos de família, batizados, casamentos. O fotógrafo documenta a história do lugar numa posição de fora, um singular espectador do mundo.

Toda pessoa tem um sonho secreto, uma coisa que deseja muito. O seu era ser violinista numa orquestra, desde que ganhara um violino do pai, quando era bem jovem. Sempre que podia, após o trabalho, vestia seu único terno negro e calçava os sapatos engraxados. Com uma gravata borboleta enfeitando-lhe o pescoço, abria a preciosa maleta, limpava, lustrava seu velho violino e tocava diante do espelho. Ali ele não era espectador, era protagonista. Via-se invencível dentro daquela moldura. Havia aprendido a tocar o instrumento com o pai, mas somente uma música: “Tu Mai Le”. Era tudo o que ele sabia, assim como o pai. Naqueles momentos em frente ao espelho, sentia que poderia criar uma nova música, mas lhe faltava algo.

Naquela época, um morador da região adquiriu um aparelho projetor de cinema de segunda mão e passou a reunir as pessoas ao lado da prefeitura. Reproduziam na parede caiada, ao ar livre, alguns filmes que conseguiam a duras penas. No horário marcado, as pessoas vinham de todos os lados, animadas, com suas cadeiras de palha e roupas de domingo. Cada filme vinha acondicionado em cinco ou seis latas. As partes eram emendadas no momento da apresentação. Abílio foi convidado a tocar seu violino para animar os filmes, que eram mudos. Ele ficava em pé, em frente à imagem projetada. Enquanto iam passando as cenas, ele tocava “Tu Mai Le”, mais lentamente ou mais rapidamente, conforme a ocasião. Ninguém ligava que fosse sempre a mesma música, era pura magia.

Foi lá, naquele cinema improvisado, que Abílio conheceu Anastácia. Ela apareceu na parede da prefeitura, com seu rosto expressivo, interpretando todas as mazelas de uma mocinha indefesa. O filme passou num dia de inverno, poucas pessoas na platéia, munidas de sacos de pipoca e limonada doce. Abílio, com seu olhar técnico de fotógrafo, sempre admirara os ângulos das filmagens, a incidência da luz e da sombra, o movimento. Mas o mundo parou para ele quando ela surgiu. Nada mais importava: só Anastácia e o violino.

Por um erro do operador da máquina, distraído com a moça da pipoca, a sexta lata de filme foi passada antes da quinta, invertendo o final da história. Após a cena de sua morte no filme, Abílio, ainda com lágrimas queimando-lhe as faces, vê estupefato, a sua heroína reviver como uma fênix. A última imagem projetada: Anastácia, olhando maliciosa para o único espectador atento. Tomado por um raro sentimento, acalorado pela paixão, ele tocou finalmente uma nova música, criada naquele momento único, eterno. À sua frente, apenas aqueles grandes olhos, que agora tomavam a parede toda.

Ah, os olhos de Anastácia, janelas da alma de Abílio...


*Anastácia = Ressurreição em Grego

*Abílio = Apto em Latim

19/05/2011

Óculo

Martha olhava pela janela. Sua vida se resumia nisso. Nunca saía porta afora, assistindo à vida urbana do alto de um sobrado, através da janela redonda apontada para o oeste. Era um antigo vitral colorido, com uma armação de ferro, muito comum naquele lugarejo. No lusco-fusco da tarde, com um secreto deleite, chegava ao óculo e admirava a tarde tornar-se noite, com todos os seus matizes brasis.

Ela se sentia rainha, vendo o mundo de cima, decidindo a vida dos outros, como se fosse possível. Quase sempre a mesma cena: as crianças, as roupas no varal, o movimento suburbano de retorno às casas, bicicletas, um cão que late, o dia morrendo sobre os telhados e as sombras tomando conta de tudo. Seus olhos já cansados da rotina diária e ritualística, da insanidade seca e solitária, vislumbravam personagens imaginários. Acenava para os lençóis coloridos da vizinhança, estendidos ao vento, como se fossem princesas que chegavam de um passeio para se recolherem antes do anoitecer. Pipas eram sereias aladas, com seus rabos serpenteando pelo céu, tentando arremeter contra as crianças gritalhonas da vila. Um poste de esquina, nem sempre aceso e por vezes faiscante, era um mensageiro alto e magro trazendo notícias de outras terras, que ela interpretava a seu bel-prazer.

No horário marcado, Martha regia tudo à rua da frente feito uma maestrina. Nos dias de chuva, baldes se derramavam do céu para lavar os pensamentos impuros do mundo, que se impregnavam nas coisas visíveis. Raios para queimar os mais insistentes. Mas era quando o sol descia vermelho, em tempos de estiagem, que aquela senhora experimentava um sentimento romântico e tão verdadeiro quanto a sua imaginação. Um bravo cavaleiro com armadura de fogo cavalgava no horizonte até sumir. Vivenciar aquilo era o que lhe bastava para encher os sonhos de nostálgicas meias-lembranças. E como sempre acontecia pela manhã, nada mais restava em sua volátil e seletiva memória.

Foi num destes dias de sol vermelho que imprudentemente bateu com a bengala no ferro da janela, provocando uma vibração que a estilhaçou por completo. Vendo aquilo, instantaneamente a senhora teve consciência de todos os seus dias à beira do vitral. O vidro quebrou-se, e com ele, a distorção. Rompido, deixou um novo ar entrar no seu corpo, uma nova luz. A cena daquele vidro quebrado aos seus pés e a verdadeira imagem do lado de fora, trouxe-lhe a consciência de si mesma e a necessidade urgente de encerrar o ciclo.

O mundo não é o mundo senão por nosso olhar sobre ele. Martha ousou abrir a sua porta, há tanto tempo cerrada. E caminhou majestosa em direção contrária ao seu cavaleiro fugidio. Andou na linha da estrada, em busca de alguma coisa, a lucidez talvez, o nada, quem sabe.

*Martha = Dona da Casa em Aramaico

10/04/2011

Domínio

Ronaldo sempre fora um menino inteligente e estudioso. Gostava de participar de tudo que pudesse: o grêmio estudantil, times de esportes, o coral, clube de matemática e xadrez, desafios de química e até da horta escolar. Competitivo, até ali conseguia se sobressair e desenvolver as melhores espécimes vegetais. Como fosse imbatível em várias áreas, sempre era escolhido para comandar os outros míseros mortais do colégio. Cresceu, formou-se em TI e foi trabalhar em uma importante multinacional do ramo de software e não descansou enquanto não fosse o chefe. Adorava aquilo, pesquisava o tempo todo e mesmo fora do trabalho sua mente não parava de programar sistemas. Em casa vivia conectado, participava de todas as redes de relacionamento possíveis e jogos on line. Não só pelo prazer, mas para analisar os detalhes da rede, os limites sempre em ampliação da mente humana x máquina. Certo dia foi fazer um exame médico rotineiro da empresa e percebeu que estava com seus óculos de grau no rosto e os de sol esquecidos na testa. Quando estamos num consultório médico reparamos que temos um corpo, um estranho momento este. Tirando-os da fronte, começou a perceber que estava ligado a uma grande quantidade de aparatos que não lhe eram próprios. Precisava de óculos de sol e grau ou lentes de contato, usava aparelho auditivo para um pequeno probleminha no ouvido esquerdo, dois pinos no braço por ter caído da escada, um aparelho dentário para corrigir a mordida, uma placa de platina na perna por um acidente de carro pouco tempo atrás... Além disto, usava um celular de última geração colado ao cinto da calça (com máquina digital, filmadora, internet, MP4, rádio FM), relógio de pulso com calculadora, despertador e cronômetro, chaves, pen drive, crachá, cartões para os mais diversos fins, i-pod no bolso e até palmilhas anatômicas. Ronaldo voltou para casa um pouco desconfortável. Uma leve sensação de pânico tomou-lhe o corpo ao imaginar que não conseguiria se livrar dos gadgets assim que quisesse. Usava-os, é verdade, e tornava-se um ser “melhorado” com eles, mas e se quisesse descartá-los? Não havia nascido com tudo isto, nem fora e muito menos dentro. Havia se tornado um ciborg e nem percebera. E se todas aquelas coisas se voltassem contra ele? Ele não queria mais pensar nisto, mas a imagem do seu descontrole sobre elas lhe causava mal estar. Sentia-se completamente livre no mundo virtual, era um paradoxo que do lado de cá da tela estivesse preso a um punhado de coisas. Pouco tempo antes se orgulhava de possuir um gps... Quem diria. A paranóia foi se agravando com o tempo. Não queria mais comer com os “equipamentos” garfo e faca, não usava mais guarda-chuva, evitava o mouse, estava se tornando cada dia mais esquisito. Brigava sozinho chegando às vezes, lamentavelmente, às vias de fato consigo mesmo. Pior. Ele começou a sentir, principalmente à noite, que seu espírito estava sendo engolido pela porção máquina que estava nele, era uma luta constante interior. Até dormir podia ser um problema, no momento em que baixasse a guarda, seus pinos poderiam tomar o poder e tudo estaria perdido. Sempre recebeu spam, mas agora as mensagens pareciam assustadoras e ele parou de conferir o e-mail e os sites. Isto foi o fim. O fim do mundo digital para ele. Estava desconectado, arrasado, acabado. Então surtou. Os vizinhos o recolheram da lata do lixo em que se enfiou e o levaram ao hospital. Nem tinha reparado que tinha vizinhos, e então, foi salvo por eles. As pessoas se unem na desgraça e com ele não foi diferente. Um último instinto de sobrevivência o fez melhorar de saúde. Um casal de velhinhos da casa do lado, a adolescente da casa da frente, o gordinho vendedor de carros do outro lado da rua, todos preocupados com aquele nerd esquisito. Medicado, conseguia esquecer dos aparatos e quase se tornou normal. Mas a sua placa de platina não se entregou facilmente e por vezes ainda faz um ataque surpresa. Ronaldo = Governador Misterioso (Germânico)

31/03/2011

A VOLTA

Era um homem normal. Claro, tinha certos defeitos: o egoísmo que herdou do pai, uma dose de avareza, que lhe causava insônia... Também tinha lá seus problemas de relacionamento, pois era extremamente metódico. Além disso, sentia inveja dos irmãos, todos muito bem sucedidos, o que causou paulatinamente o afastamento dele com a família e uma boa gastrite. Mas nem por isso podia ser considerado um homem mau ou miserável, era apenas um homem, na verdadeira acepção da palavra, atormentado pela competitiva e desgastante vida moderna. Formou-se em biblioteconomia e trabalhava numa pequena biblioteca na escola do bairro, apesar de nunca ter-se interessado por literatura, ou por crianças... Sua atenção estava focada apenas na ciência do arquivamento.

Conseguiu um pouco de estabilidade emocional com a idade, mas o casamento, embora tardio, foi o que lhe trouxe mais tranqüilidade. A esposa, uma mulher incorruptível, de hábitos franciscanos e atitudes irrepreensíveis, era também muito trabalhadora. Passava roupas para completar o orçamento da casa. Era tímida, porém amável. Não tiveram filhos. E tudo andou bem por vinte e dois anos, quando completaram suas Bodas de Louça. Sim, de Louça. Provavelmente este nome seja devido a um dado estatístico, que quando se completa vinte e dois anos de casamento, uma época “frágil” se inicia. E realmente, foi por volta desta data que tudo se quebrou.

Era noite, ele assistia TV e a esposa escolhia silenciosamente meio quilo de feijão quando, inesperadamente, ela abriu a boca e gritou como nunca antes em sua vida. Jogou tudo para o alto e saiu porta afora para nunca mais voltar. Atônito, ele ficou parado durante horas, olhando praqueles feijões esparramados pelo chão, no meio da louça quebrada, como se ali fosse encontrar a razão para tal comportamento. Ela sumiu, dizem que foi embora para o México, ninguém sabe ao certo o seu paradeiro. Sem compreender nada, ele aguardava. Cauteloso, dizia pra si mesmo que tudo o que vai, volta, tudo o que abre, fecha, e assim por diante.

Depois daquele fato, ele foi se tornando um homem solitário e desconfiado. Confinou-se ainda mais na sua mania de rotular as coisas, fazer listas, contar o tempo, esterilizar a casa. Fechou-se cada vez mais no seu mundo particular e resolveu dedicar o tempo livre para ler e reler a sua coleção de clássicos da literatura que até então, só servira para enfeitar a sala. A coleção fora presente de uma tia, quando completara 15 anos e ele nunca abrira sequer uma página até agora. Surpreso, gostou da experiência. Ali dentro daquelas narrativas foi-se sentindo mais vivo e, com o tempo, mais seguro: toda trama tinha começo, meio e fim, diferente da sua própria história, que considerava inacabada.

Ao fim de cada leitura, repetia para si: tudo o que vai, volta. Esta frase foi se tornando um mantra e a idéia se alastrou devagar para todo e qualquer pensamento. O que no princípio lhe trazia conforto começou a se tornar perturbador. Na sua casa, as coisas tinham um lugar demarcado para serem retiradas, usadas e voltarem ao lugar. Mas num âmbito maior? E de onde tinham vindo? O lugar delas não fora eternamente o armário dele, nem o supermercado, nem o depósito ou a fábrica. E se todas as coisas voltassem às origens? Este panorama preocupou-o, agravando sua insônia. À noite, a idéia pegava-o mais desprevenido e então, passou a ouvir sons pela casa, principalmente na sala. Era um farfalhar ligeiro de quando em quando.

Tudo o que vai, volta. Sabia que tinha a ver com o novo foco de sua vida, mas não podia crer quando descobriu do que se tratava: seus livros começaram a criar folhas e raízes: estavam voltando a ser árvores. Eucaliptos, pinheiros e bambus. Árvores, cada vez maiores, uma floresta inteira buscando enraizar-se entre os tacos de parquet e acima, galhos perfurando o forro! A sua coleção de clássicos! Transtornado, mergulhado na insensatez, voltou ele também às origens, imaginando-se barro e depois pó. Estranhamente, aquilo finalmente lhe trouxe paz, quase um estado de graça. Voltou para a cama relaxado e dormiu finalmente o sono dos justos. Tudo o que vai, volta.

23/03/2011

Céu?


- Mãeeeeee! Quem é esta pessoa na foto do porta-retrato?

- É o vô Antônio.

- É outro avô? Eu já tenho dois.

- Não, é o avô do seu pai. É seu bisavô.

- Ah, e como eu não conheço ele? Onde ele mora?

- Hmmm, ele mora no céu. É tão longe que você não pode ir.

- Mas mãe, eu quero ir no céu...ver o meu bisavô...

Maurício tem cinco anos e não dá uma folga. Quer saber tudo: onde, porquê, quando, como. E se uma coisa está mal explicada, ele persiste nos questionamentos.

- Mãe, mas como alguém pode morar no céu, lá só tem nuvem. E às vezes nem tem. Só se fosse um astronauta...Hehe, imagina só o meu bisavô num foguete espacial.

- Bom, ééééé...ããããã...Ele botou uma escada e foi morar lá. É muito bonito lá, tem tudo o que ele precisa...

- Como é que você sabe? Já foi lá na casa dele?

- Bom, eu não fui, mas dizem que é assim, bonito.

- Quem falou isto, é alguém confiável?

- Ai, menino, deixa de tanta pergunta e vê se dorme que está tarde. Quem te ensinou esta palavra: “confiável”? Esse menino...

- Eu vi na TV, mas não muda de assunto, mãe.

- Vamos dormir, outra hora eu te explico.

No outro dia, o porta-retrato desaparece da sala, para evitar um novo interrogatório.

- Pai, você pegou a fotografia que estava aqui ainda ontem?

- Não, Maurício, por quê?

- Como eu não conheço o meu bisavô Antônio? Aquele da fotografia...

- Ele já morreu. – Diz o pai distraído com o jornal da manhã.

- Morreu? A mãe disse que o bisavô da foto foi morar no céu! O que você acha?

- Ah, ela disse isto? Então foi isto mesmo que aconteceu.

- Ele morreu primeiro e depois foi ou quem sabe já morreu no céu? No meu videogame posso morrer várias vezes. O meu bisavô jogava também?

- Hmmm, estou meio atrasado agora, depois a tua mãe vai explicar direitinho, viu?

O menino não desiste fácil. Deixa passar uns dias e volta a falar sobre o assunto delicado.

- Mãe, me explica o tal negócio de morar no céu?

A mãe respira fundo e resolve que era hora de ter aquela conversa definitiva.

- Acontece assim: no céu ficam todos os bebês. Daí um é escolhido e vem morar com uma família na Terra. Ele cresce e fica um menino, depois um homem até virar pai, avô e depois um bisavô. Quando ele não pode mais crescer porque está muito velhinho e cansado, ele volta pro céu, de onde veio.

- Mãe, deixa disso. A pessoa que morre vai pro cemitério, é enterrada e acabou. O Juninho me contou ontem.

- Hmmm, sim, é verdade. Ele morreu e foi enterrado. Mas nós acreditamos que uma parte, o anjinho que mora na gente, fica vivo. Hmmm... é mais ou menos assim.

- Mãe, então tem um anjo que mora dentro de mim e que quando eu morrer ele ainda vai sair inteirinho e feliz da vida pro céu? Essa não!

- Não, Maurício, este anjinho é você mesmo!

- Ta mãe, deixa pra lá que o Juninho ta mais por dentro que você nesta história.

A mãe não se dá por vencida.

- Você é muito pequeno pra entender tudo, quando crescer vai entender melhor.

Mais uns dias e o menino brinca no pátio, montando uma arapuca. O pai vem para ajudá-lo.

- Quer pegar um passarinho, filho?

- Não, um anjinho safado que vai me sacanear quando eu ficar bisavô.

17/03/2011

GAIOLA



Olho pra dentro
Um rio de lava
Do lado de fora
Um mar de ruídos
No limiar uma trava


Quero dizer mais
Ativar o vulcão
Verbalizo
Meias-palavras
Noutra direção

Vôo em redemoinho
Cores numa pintura
A mão busca a palavra
Escrevo pouco

Abreviatura

19/02/2011

RUMO


Estava sentada na estação de trem, vestindo roupas apropriadas, simples e bem cortadas, com malas à volta. Por um momento a coisa toda lhe escapou da razão. Um piscar de olhos e... Nada. Em sua mente, estava lá: a infância num sítio junto à família, a juventude no colégio de freiras, as coisas corriqueiras e imprescindíveis como a linguagem e a noção de ser alguém com um concreto passado. Também tinha consciência das coisas que possuía, podia enumerá-las, que não eram tantas... Mas o principal, o exato momento anterior lhe fugia. Abalou-se, mas não queria chamar atenção. Denunciando-lhe, apenas uma gota de suor descendo pela têmpora, ao que ela limpou rapidamente. Olhou para os lados, fingiu certezas.

Reconhecia suas roupas e aquelas malas velhas, que ganhara de sua avó. Uma senhora miúda, de origem portuguesa, que vira mais coisas na vida do que cabiam em seus pequenos olhos. Acima de tudo, vira o tempo, coisa que a jovem viajante não tivera tempo de fazer. Engraçado isso, sem tempo de ver o tempo... É preciso percorrê-lo, pensou. Caminhar sobre ele. Até mesmo, desfiar a sua linha, a linha do tempo. Com certeza sem desfiá-lo, não se pode senti-lo inteiramente, o seu pulso. Arrumou-se no banco e abriu a frasqueira que estava ao lado, na esperança de que alguma coisa lhe desse o rumo: se estava de chegada ou de partida.

Encontrou ali dentro pequenas coisas, que manuseou com carinho. Um cuidado de quem mexe naquilo que não é seu. Sorriu, ao ver uma concha do mar, que ganhara de um amigo vindo de longe. Passou os dedos sobre as rugosidades, que assim, fora do contexto marinho, não parecia terem sido criadas para outra finalidade, senão o deleite do tato. Abriu um relógio antigo, onde estava gravado o nome do seu bisavô. Lembrou-se vagamente do contato com ele na primeira infância, um grande bigode e a fala mansa lhe roçou a orelha, sussurrando um conto.

Outros objetos contidos ali, lhe desafiaram a memória, ao que ela respondeu positivamente. Um recibo numerado, porém, com horário marcado para partida em dez minutos, trouxe a certeza de que estava de saída. Tanto melhor, assim poderia exercitar, sobre o trilho do trem e o pulso dos dormentes, a consciência de si mesma, desfiar o tempo um pouco mais.

24/01/2011

O Pássaro Amarelo



Era uma vez um importante empresário que era aficionado por pássaros. Na cidade só os via de relance, numa pequena loja próxima de sua empresa, sobrevivendo de migalhas em suas gaiolas apertadas. Apesar de ter alcançado o sucesso nos negócios, espelhava-se neles, imaginando uma vida melhor em outro lugar. Adorava vê-los soltos na natureza, nas raras vezes em que tirou férias. Aspirava um sentimento semelhante de leveza, expansão. Liberdade anímica.

Decidiu aposentar-se e redirecionar totalmente a sua vida. Comprou uma casa no meio de uma floresta e mudou-se para lá. Comprou livros e equipamentos sobre o assunto preferido: ornitologia. Nada superava a felicidade de vê-los na mata. Gostava de perceber como alguns pulam em vez de andar, como alguns batem o alimento no tronco antes de engolir, como faz cada espécie instintivamente seu ninho, sempre da mesma forma não importa em que lado do planeta esteja. E o canto, ah o canto era o primeiro item a ser percebido por ele. Mas era na simplicidade de observá-los soltos em vôo ou harmoniosos, dispostos sobre um galho de árvore, que ele sentia um tipo de prazer estético. O mesmo que se sente frente a uma obra de arte, onde uma descarga elétrica que vem do estômago, vai tomando os membros inferiores “retirando o tapete do chão”. Depois invade os superiores causando certo formigamento, um quase-pânico. Chega ao pulmão, obrigando-o a tomar fôlego antes que o coração pare e então, se aloja por um momento infinito na garganta. Engole-se quase em seco num misto de inveja e medo, alegria e plenitude. Por que não criei isto eu mesmo já que fazia parte de mim desde sempre? O que é isto que me desestrutura e me completa ao mesmo tempo? Como isto me faz rir as entranhas? Onde eu estava adormecido que isto me acorda? E então, a coisa invade a mente, que antes de sucumbir à loucura, infelizmente (ou felizmente), classifica, rotula, fragmenta, descreve, e retêm, na sua fome de mais. Ou talvez, guarda numa “gaveta” para alguma aplicação prática no futuro (?!)

Um dia, este homem resolveu excursionar por uma parte da mata mais fechada e desconhecida. Caminhou e acampou por dias como sempre gostava de fazer. Camuflava-se com folhas sobre a roupa e o chapéu para não assustar os animais. Podia ficar horas na mesma posição para ver algum espécime voltar ao ninho com alimento para os filhotes.
Chegando a uma clareira, vê ao longe, no céu, uma ave, mais impressionante do que tudo o que já tinha visto. Ela parecia possuir escamas a brilhar ao sol em mil tons de amarelo. Com seu binóculo observou maravilhosas asas, o corpo vigoroso, o bico delicado. Parecia brincar com as correntes ascendentes por longos minutos. E desceu para uma árvore próxima. Pela primeira vez na sua vida de observador e libertário, desejou possuí-la. A ave percebeu a sua presença e por algum tempo ficou observando seu oponente. Depois voou para longe. Ele se viu como um lince a esquivar-se pelos galhos imaginando artifícios para capturá-la. O homem desceu da árvore, caminhou rapidamente pela floresta, voltou à casa e fez a mala para voltar à cidade grande, onde era seu lugar de predador.