09/12/2010

O Caminho das Letras

*Ilustração de meu conto "Maria e a Maçã"


As horas não bastam para tantos projetos em andamento... Onde será que foi parar aquela sensação de paz pela manhã, ao abrir os olhos descansados... Que antes permaneciam assim ao menos até o café fazer o seu efeito? Ou à noite, quando na hora de deitar, conseguia-se ouvir um pouco de silêncio e os mesmos olhos iam cerrando-se para o mundo sólido e abrindo-se para o sutil? Aqueles lugares oníricos aonde vão os de pijamas, que não tem gravidade, não tem começo nem fim, o passado mistura-se ao presente e ao futuro, e mesmo assim tudo faz sentido? Não é possível que aqueles segundos que duravam tanto sejam os mesmos que agora se atropelam querendo chegar à frente, numa corrida desenfreada.

Foi num momento, numa fenda entre o tempo e o silêncio, que encontrei três pontos reticentes, muito bem guardados, onde as leis da física não agem. Ali dentro deles, o alfabeto se fez. O ritmo é da coisa pensada e não anda só para frente em marcha de linha reta. Não. Faz todo tipo de rodeio, dança um louco percurso, pulsa, descobre o mais escondido dos sentidos e se abre pra quem se dispuser a entrar. É só preciso uma dose de querer e uma outra de se dar.

Entrar ali, é como lembrar das escapadas furtivas para dentro do armário da minha mãe, roçando tecidos finos e perfumes de outros tempos. Sinistros, com a porta semi-aberta, os ruídos abafados pela grossa madeira. Na lateral, perfilavam cintinhos de pano e fitas, as cores podiam ser imaginadas. Tudo era distorcido do real. E aquele espelho, colado à porta por dentro, que mal refletia minha imagem, mostrava um novo universo, carroliano, inverso. Lá dentro sou canhota, não sinto dor nem medo e tenho certeza que sou muito mais bonita lá, sempre sorrindo, enfeitada. Uma perfeita rainha branca. De lá vêm todas as ambulâncias com suas letras ao contrário. E os linguados, que não preciso explicar por quê. É possível que de lá venham também as canções das baleias.

São destes lugares secretos que vêm as palavras, mas é preciso achar a fenda, que pode estar onde menos se espera. É ela que mostra o caminho, o Caminho das Letras.

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