17/12/2010

Mensagens do Além


Astride acreditava nas mensagens que o universo lhe lançava. Não só na propaganda comercial dirigida a “VOCÊ, amigo consumidor”, na proposta política ou qualquer *Conjunto de atos que têm por fim propagar uma idéia, opinião ou doutrina. Mais. Não só nas intuições de que isto ou aquilo não podia ser boa coisa ou aquela velha sensação de estar sendo ludibriada. Não. Toda mensagem de qualquer natureza que ela presenciasse fazia surtir um efeito amplificado na sua mente e ela não controlava mais seus passos. Sentia-se perdida no rol das mídias. Era influenciável e até se pode dizer supersticiosa, preconceituosa, consumista, crente. Acho que estou sendo gentil: ela era o próprio influxo em carne e osso. O fato é que alguma coisa nas palavras ou na imagem, nas cores, no tipo de texto, um momento de ansiedade talvez, algo acionava o gatilho da sua fraqueza e não tinha paz enquanto não buscasse o que mandava a mensagem.

A família e os poucos amigos cansaram de explicar, suplicar e esperar o seu despertar. Enfim começaram a dissuadi-la de sair, discretamente, com medo que fizesse alguma besteira maior, e foram tantas... Deixou o emprego. Quando se aprontava para ir ao mercado, pânico geral. Assim também, buscar a correspondência, passear com o cãozinho, reunião de bairro... Enfim, juntar as folhas no quintal ficou sendo a única coisa segura que restava para fazer no lado de fora da casa. Infelizmente, toda trama tem um ponto aberto. Aquele plano empírico não previu a invasão via aérea. As ondas sonoras! Novos desastres. Você sabe como uma cidade pode ter barulho, muito barulho...

Não havia nada mais a fazer: prendeu-se por vontade própria, Astride com todos os seus desejos, no trigésimo andar de um prédio velho, uma ilha sem terra, sem pontes para qualquer lugar. Um paraíso branco e silencioso instalado num ambiente anguloso. Calmaria. Mas o ruído começou baixinho de dentro pra fora, não muito tempo depois. O que era angelical tornou-se humano, somando no mínimo quatro pecados de sete, e por fim, simplesmente infernal. As paredes sussurravam coisas vagas. O ar soprava um hálito vazio. Os sonhos, estrangeiros, confundiam a sua mente fazendo sumir o sentido de tudo, mas não a ansiedade. Astride agüentou o quanto pôde. Enfim, empoleirou-se no muro da sacada, em meio à névoa distorcida do mapa urbano. Ali ficou por dias, meses, murmurando para o nada. A pele foi-se enrijecendo, os olhos fixos de gárgula sobre a imensidão cinzenta.

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