21/11/2010

A Ponte


Sentado sobre a ponte, não conseguia organizar as idéias. Enxurradas de pensamentos mesclados doíam-lhe pelo corpo imundo. Enxurradas também de águas, abaixo dos pés. Foi-se o casebre e a pequena lavoura, foi-se tudo de uma vez. Agora lhe escapava a lucidez. Não conseguia expressar sentimento algum, era como se ele próprio tivesse ido também.

Buscou alguma coisa na memória que lhe fizesse recuar, mas ainda escutava o estrondo do desmoronamento. Olhou então fixamente para a água barrenta, volumosa torrente e uma chance de paz.

Buscou, a duras penas, algo em volta, um alento. Nada. Ficou ali num vazio sem fim, num silêncio ensurdecedor. Olhou para os seus pés pendentes, suas mãos cruzadas e vagarosamente foi tomando consciência através das mãos. Ali estava marcada uma vida inteira. As cicatrizes, rugas, manchas, vestígios impressos pelo trabalho, a terra e os grãos, e todas as raízes. O tempo. E dentro, pele, ossos, veias, o sangue correndo como aquele rio de lama. Os dedos, feitos para segurar, tocar, tudo tão vivo e tão vigoroso... Tão perfeito...
Dois rumos ou as águas, eis o que se tem - pensou. Bem, e as mãos... As mãos. Desceu do beiral e andou, engatinhou e rastejou sobre aquela ponte, suspensa no espaço, hesitante no tempo, a busca de uma fresta, um caminho plausível digno daquela perfeição.

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