03/08/2010

O Barco da Memória

Passada a missa de sétimo dia e muitas lágrimas, a viúva começou a pensar no que faria ela com uma embarcação de pesca. O finado marido cuidara do barco como se fosse alguém da família, não queria desfazer-se dele.
Naquela tarde, viu uma gaivota grande e umas menores, sentadas na proa e aquela cena inspirou-lhe uma idéia. Prendeu bem o barco na frente da casa, botou uma escadinha e convidou as crianças da rua para ouvirem histórias da ilha, sentadas naqueles bancos salgados. Fez uma limonada, umas broas de milho e recolheu da memória várias histórias que ouvira no lento balanço dos anos.
A notícia se espalhou e logo as amigas, os vizinhos e os passantes também queriam participar. Assim, aquele diferente e democrático espaço ficou conhecido na região como “O Barco da Memória”, em que todos podiam reavivar as suas lembranças através dos contos e lendas locais. E quando não lembravam, criavam na hora, sem cerimônias. A viúva entregou seu luto ao mar e sem medo, navegou com seu barco da memória sobre o oceano da linguagem.

3 comentários:

  1. Belo trabalho!
    Além do belo visual, o texto fez com que eu viajasse no meu "barco de memórias."

    ResponderExcluir
  2. Puxa... q lindo.
    emociona.
    essas Cattoi tão cheias de dotes!

    ResponderExcluir
  3. Que lindo!!
    espero ter boas histórias qndo chegar meu barco.

    ResponderExcluir