21/07/2010

Alegoria Noturna


Tecia avidamente com o fio da existência, aceitando o que viesse à sua mão. Munida de uma vontade que não se explica, tomava o fio dos acontecimentos e os tecia. Com o tempo, veio a ousadia da juventude, então juntou também o fio das idéias inesperadas, da sede de conhecer e de se doar para o mundo, produzindo um tecido mais colorido do que nunca. Viajou por muitos lugares, explorando outras linhas de pensamento. Juntou-as ao seu fio da memória, recriando desenhos universais. Híbridos. Sensíveis.
Mais um tempo se passou e ela conheceu a experiência, a sabedoria, o limiar da perfeição de Aracne. Com os fios prateados sobre a testa, teceu preciosidades nunca antes imaginadas. Teceu as filosofias complexas e as vivências ecológicas, teceu as histórias do planeta e as vanguardas, as ciências e seus paradigmas sistematicamente quebrados. Teceu a exatidão da matemática e a força reveladora da arte. Teceu a abundância e a miséria.
Uma noite, entre mil e uma, sentiu que a vida foi se esvaindo devagar. Com a vida por um fio, todo tecido passou defronte dos seus olhos e então...
Deixou-se levar por seu tapete mágico.

3 comentários:

  1. Lindo texto, Márcia. Sensível, delicado e cheio de emoção. Gostei muito! Parabéns!

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  2. Concordo com o amigo Alê.
    Muito bem lembrada a mitologia grega, na perfeição da arte de Aracne.

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  3. Sensível lindo...
    parabéns

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