21/12/2010

Biblioteca Osni Régis



Não muito longe daqui
Entre prédios e automóveis
Existe um raro lugar
Desconhecido da maioria
Que argolada ao relógio ponto
E sempre na correria
(No mesmo percurso
Trilhado dia-a-dia)
Não percebe o portão de ferro
A placa, o caminho do lado
A bananeira cheirosa
O piado do sabiá
Não vê o reino escondido
Onde tudo é singular

A chuva derramada
Escorre como uma bênção
Pela vidraça entreaberta
No telhado e na calçada
Embala meu pensamento
Que se desprende do solo
E foge como o vento
Liberdade conquistada

Procuro logo um livro
Uma cadeira num canto
Ou mesmo um degrau de escada
Bem gostoso pra viajar

Biblioteca Prof. Osni Régis, Avenida Mauro Ramos, nº 1344, Centro/Florianópolis

Horário: de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h

Mais informações: (48) 3223 4833

17/12/2010

Mensagens do Além


Astride acreditava nas mensagens que o universo lhe lançava. Não só na propaganda comercial dirigida a “VOCÊ, amigo consumidor”, na proposta política ou qualquer *Conjunto de atos que têm por fim propagar uma idéia, opinião ou doutrina. Mais. Não só nas intuições de que isto ou aquilo não podia ser boa coisa ou aquela velha sensação de estar sendo ludibriada. Não. Toda mensagem de qualquer natureza que ela presenciasse fazia surtir um efeito amplificado na sua mente e ela não controlava mais seus passos. Sentia-se perdida no rol das mídias. Era influenciável e até se pode dizer supersticiosa, preconceituosa, consumista, crente. Acho que estou sendo gentil: ela era o próprio influxo em carne e osso. O fato é que alguma coisa nas palavras ou na imagem, nas cores, no tipo de texto, um momento de ansiedade talvez, algo acionava o gatilho da sua fraqueza e não tinha paz enquanto não buscasse o que mandava a mensagem.

A família e os poucos amigos cansaram de explicar, suplicar e esperar o seu despertar. Enfim começaram a dissuadi-la de sair, discretamente, com medo que fizesse alguma besteira maior, e foram tantas... Deixou o emprego. Quando se aprontava para ir ao mercado, pânico geral. Assim também, buscar a correspondência, passear com o cãozinho, reunião de bairro... Enfim, juntar as folhas no quintal ficou sendo a única coisa segura que restava para fazer no lado de fora da casa. Infelizmente, toda trama tem um ponto aberto. Aquele plano empírico não previu a invasão via aérea. As ondas sonoras! Novos desastres. Você sabe como uma cidade pode ter barulho, muito barulho...

Não havia nada mais a fazer: prendeu-se por vontade própria, Astride com todos os seus desejos, no trigésimo andar de um prédio velho, uma ilha sem terra, sem pontes para qualquer lugar. Um paraíso branco e silencioso instalado num ambiente anguloso. Calmaria. Mas o ruído começou baixinho de dentro pra fora, não muito tempo depois. O que era angelical tornou-se humano, somando no mínimo quatro pecados de sete, e por fim, simplesmente infernal. As paredes sussurravam coisas vagas. O ar soprava um hálito vazio. Os sonhos, estrangeiros, confundiam a sua mente fazendo sumir o sentido de tudo, mas não a ansiedade. Astride agüentou o quanto pôde. Enfim, empoleirou-se no muro da sacada, em meio à névoa distorcida do mapa urbano. Ali ficou por dias, meses, murmurando para o nada. A pele foi-se enrijecendo, os olhos fixos de gárgula sobre a imensidão cinzenta.

09/12/2010

Ainda sobre Mahagonny...

ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY, da obra de Bertolt Brecht com Direção de Carmen Fossari (04,05, 06 dez/2010 Teatro da UFSC). Uma peça envolvente no desenvolvimento, plasticamente interessante (ambientada nos anos 30), mas principalmente, aborda um tema universal, atemporal, tratado com ironias e verdades brutas: a cidade. A cidade com todos os seus dilemas. As relações entre as pessoas, interesses e crenças, a lei e o poder, o amor (?), o dinheiro e os vícios.

O texto foi criado originalmente para uma ópera. Traduzida e encenada, então se multiplica. Tem várias falas coletivas, um ritmo musical, planos de ação, vídeos e personagens memoráveis. Não dá para chamar de comédia nem tragédia. Uma sátira social? Sim, mas com poesia, razão + emoção. Uma obra considerada Épica. O público não se coloca no lugar do herói ou de outro personagem, é o teatro da não-catarse. Apesar disto, a peça tem um assunto que paira acima de todos, acima... ou nos seus estômagos.

Esteticamente, vi a figura da diretora como alguém que pinta uma tela ou como um maestro de orquestra. Não somente nesta obra, mas especialmente nela. Harmoniza os instrumentos para um resultado muito além de sua importância literária, subtextos ou crítica social. Arte.
Como personagem, sinto o peso de uma classe, sensação intensificada pelo texto trabalhado em grupo. Ali não sou um indivíduo, apesar de imaginar a história da personagem, explorar seus desejos, defeitos e (porque não?) virtudes. Mergulhar no mundo de Mahagonny é surreal. Espero que tenham gostado da peça, é um presente-surpresa.

O Caminho das Letras

*Ilustração de meu conto "Maria e a Maçã"


As horas não bastam para tantos projetos em andamento... Onde será que foi parar aquela sensação de paz pela manhã, ao abrir os olhos descansados... Que antes permaneciam assim ao menos até o café fazer o seu efeito? Ou à noite, quando na hora de deitar, conseguia-se ouvir um pouco de silêncio e os mesmos olhos iam cerrando-se para o mundo sólido e abrindo-se para o sutil? Aqueles lugares oníricos aonde vão os de pijamas, que não tem gravidade, não tem começo nem fim, o passado mistura-se ao presente e ao futuro, e mesmo assim tudo faz sentido? Não é possível que aqueles segundos que duravam tanto sejam os mesmos que agora se atropelam querendo chegar à frente, numa corrida desenfreada.

Foi num momento, numa fenda entre o tempo e o silêncio, que encontrei três pontos reticentes, muito bem guardados, onde as leis da física não agem. Ali dentro deles, o alfabeto se fez. O ritmo é da coisa pensada e não anda só para frente em marcha de linha reta. Não. Faz todo tipo de rodeio, dança um louco percurso, pulsa, descobre o mais escondido dos sentidos e se abre pra quem se dispuser a entrar. É só preciso uma dose de querer e uma outra de se dar.

Entrar ali, é como lembrar das escapadas furtivas para dentro do armário da minha mãe, roçando tecidos finos e perfumes de outros tempos. Sinistros, com a porta semi-aberta, os ruídos abafados pela grossa madeira. Na lateral, perfilavam cintinhos de pano e fitas, as cores podiam ser imaginadas. Tudo era distorcido do real. E aquele espelho, colado à porta por dentro, que mal refletia minha imagem, mostrava um novo universo, carroliano, inverso. Lá dentro sou canhota, não sinto dor nem medo e tenho certeza que sou muito mais bonita lá, sempre sorrindo, enfeitada. Uma perfeita rainha branca. De lá vêm todas as ambulâncias com suas letras ao contrário. E os linguados, que não preciso explicar por quê. É possível que de lá venham também as canções das baleias.

São destes lugares secretos que vêm as palavras, mas é preciso achar a fenda, que pode estar onde menos se espera. É ela que mostra o caminho, o Caminho das Letras.

30/11/2010

ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY




Da obra de Bertolt Brecht
Direção Carmen Fossari

DIAS 4, 5 E 6 DE Dezembro, as 21.00 H, no Teatro da UFSC TRINDADE, informações 37219348 no DAC entrada franca, chegar com meia hora de antecedência

(Texto de http://www.carmenfossari-armazemdapalavra.blogspot.com/ )

A ENCENAÇÃO

Brecht um dramaturgo cuja visceralidade muito contribui na formação dos estudantes de Teatro, atores e atrizes que estão a nascer , na formação de novas platéias e naturalmente aos atores e públicos que já percorrem o universo teatral, portanto é sempre salutar estarmos diante de um texto de Brecht.

Este que agora encenamos, ASCENSÃO E QUEDA DA CIDADE DE MAHAGONNY, que bem poderia na nossa montagem ser denominado O QUE FLORIANÓPOIS TEM DE MAHAGONY, é um texto da obra DIDÁTICA de Brecht da metade do século XX . A obra teatral do dramaturgo revolucionava e chocava o público teatral, acostumado a um teatro “bem comportado”. Na montagem original de Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny aquele público encontrava uma a cena de aparentes insultos, atrevimento, com recursos didáticos,repleta de cartazes, e reveladora de como as cidades, dentro do sistema capitalista são “uma arapuca”.Mahagonny onde tudo é permitido.

Brecht coloca seus personagens construindo uma cidade onde tudo é permitido desde que se tenha muito ouro. O preço de não ter ouro é a impossibilidade de sobreviver na cidade de Mahagonny!

Com composições de Kurt Weill o texto original é uma obra de Teatro Musical, na nossa encenação trata-se de uma obra de caráter não musical, embora mantida a belíssima composição tema da peça.

Optamos em ambientar o espetáculo ao universo do cinema mudo, inserindo imagens e áudio visual resgatando os anos 30 e 40. Esta opção, em parte realiza um utópico sonho da diretora e adaptadora do texto,de ter visto “um dia “Sir Charles Chaplin e Bertolt Brecht sentados numa mesa de bar conversando sobre suas obras: o filme Tempos Modernos e a Peça Na Selva das Cidades. Assim que foram inseridos na encenação uma personagem, o Narrador Brecht que entra em cena “costurando a dramaturgia” e outra , uma personagem que adentra na cena acompanhando Bert Brecht, sem contudo dialogar com ele, realiza pantomimas clássicas do Carlitos. Esta segunda personagem denominamos “Chaplita”.

Na peça ao inserimos a fusão de linguagens teatro e audiovisual (imagens e pequenos vídeos do cinema mudo) tentamos nos aproximar do sempre moderno Brecht, adequando as quase 7 décadas do texto escrito a montagem atual.

Brecht e sua dramaturgia e enunciados estão "vivos" em suas idéias ainda tão necessárias num mundo dividido em classes sociais, ricos e pobres, cultos e analfabetos, os que tudo podem e os que nada têm.

Um espetáculo que deita um olhar poético e mordaz sobre o nascimento e queda de uma cidade, movida pelo ouro.

A peça conta com alunos do Curso de Artes Cênicas do CCE, através de uma disciplina optativa Montagem, com alunos da Oficina Permanente de Teatro, DAC- SECARTE.Produção Pesquisa Teatro Novo –DAC-UFSC

ELENCO
Alexandre Borges – Joseph
Ana Paula Lemos - Jenny
Douglas Maçaneiro – Um tal Bert Brecht
Eduardo Stahelin - Coro Masculino
Giovana Ursini – Maysa Trindade
Iris Karapostolis - Cantora
Jacque Kremer - Leokadja Begbick
Kátia Maczewski - Procuradora
Laura Gill Petta –Coro Feminino
Letícia Costa - Coro Feminino
Luis Tinoco - Jackob
Márcia Cattoi - Coro Feminino
Mel Rezende - Coro Feminino
Neivania Theodoro - Coro Feminino
Neusa Borges - Coro Feminino
Priscila de Souza Serafim - Chaplita
Roberto Moura - Heinrich
Robson Walkowski - Paul

(* Alguns nomes foram trocados para nomes similares em Português, O Porcurador e Willy, são nesta encenação, interpretados por mulheres e transformados em personagens femininos. Chaplita e Bert Brecht, são criações para a dramaturgia desta encenação. C.F.)

Técnica
FIGURINO: O Grupo
CENÁRIO: O Grupo
OPERADOR DE SOM: Nei Perin
CARTAZ: Márcia Cattoi
Fotolito: Michele Millis
Impressão:Imprensa Universitária
OPERADOR DE AUDIO VISUAL: Ivana Fossari
SONOPLASTIA : Calu
MIXAGEM SOM : Sérgio Bessa
PREPARAÇÃO DE CANTO: Ive Luna
FOTOGRAFIA : Marcelo Pereira e Calu
ILUMINAÇÃO , DIREÇÃO GERAL : Carmen Fossari
Promoção: DAC
Apoio : SECARTE - UFSC 50 ANOS

SERVIÇO: DIAS 4, 5 e 6 as 21.00 TEATRO DA UFSC - ENTRADA LIBERADA (CHEGAR MEIA HORA ANTES) Informações DAC 33719348. Horário vespertino Informações www.carmenfossari-armazemdapalavra.blogspot.com

Promoção: DAC

Apoio : SECARTE - UFSC 50 ANOS

24/11/2010

Infinito





TRAÇO O INFINITO
PARA DO CONTRÁRIO
DEIXAR A FINITUDE FALAR
PARO NO TEMPO
COMPARO O SISTEMA
CRIADO PARA MOSTRAR
AQUILO QUE NÃO TEM FIM
LIGADOS OS TRAÇOS
SE DEIXAM LEVAR
PELO COMPASSO DAS HORAS
PEQUENA CONDIÇÃO

DETALHE A ONDULAR

21/11/2010

A Ponte


Sentado sobre a ponte, não conseguia organizar as idéias. Enxurradas de pensamentos mesclados doíam-lhe pelo corpo imundo. Enxurradas também de águas, abaixo dos pés. Foi-se o casebre e a pequena lavoura, foi-se tudo de uma vez. Agora lhe escapava a lucidez. Não conseguia expressar sentimento algum, era como se ele próprio tivesse ido também.

Buscou alguma coisa na memória que lhe fizesse recuar, mas ainda escutava o estrondo do desmoronamento. Olhou então fixamente para a água barrenta, volumosa torrente e uma chance de paz.

Buscou, a duras penas, algo em volta, um alento. Nada. Ficou ali num vazio sem fim, num silêncio ensurdecedor. Olhou para os seus pés pendentes, suas mãos cruzadas e vagarosamente foi tomando consciência através das mãos. Ali estava marcada uma vida inteira. As cicatrizes, rugas, manchas, vestígios impressos pelo trabalho, a terra e os grãos, e todas as raízes. O tempo. E dentro, pele, ossos, veias, o sangue correndo como aquele rio de lama. Os dedos, feitos para segurar, tocar, tudo tão vivo e tão vigoroso... Tão perfeito...
Dois rumos ou as águas, eis o que se tem - pensou. Bem, e as mãos... As mãos. Desceu do beiral e andou, engatinhou e rastejou sobre aquela ponte, suspensa no espaço, hesitante no tempo, a busca de uma fresta, um caminho plausível digno daquela perfeição.

05/11/2010

ÁGUA



O Passado mais remoto
Que a minha memória alcança
Surge impróprio
Invasivo
Como uma idéia que se lança.

Uma imagem um sabor
Um aroma uma lembrança
Uma porta pra outro tempo
Abre-se espontaneamente
E eu volto a ser criança.

Um sonho
Águas passadas
Uma gota que rolou
Neste meu rio de histórias
Quero esquecer
Já são horas
Urge uma boa mudança

Mas as pequenas marcas
Ficam em mim registradas
Deixadas no leito do rio
Bem como as pedras roladas

Quem sou eu afinal
O rio que passa ligeiro
E forte traça seu rumo
Ou as pedras que embaixo dele
Revelam suas formas boleadas
E isto não se pode negar:
Harmônicas mas...
Talhadas

22/10/2010

Palavras




ESCREVENDO
ME ENCHERGO
PALAVRAS-ESPELHOS
A MINHA IMAGEM
NÃO TEM LIMITES
SOMENTE COR
ÁGUA COM TINTA
O RESTO É O RESTO
UM MUNDO MÍOPE
INDEFINIDO
AMORFO


PERTENCER
DAR SENTIDO
É SE ESPALHAR
MUDAR DE COR
COMO UM POLVO
MIMESIS
E NO RASTRO
JATO DE TINTA
TINTA COM ÁGUA

01/10/2010

Fotografia



FOTOGRAFIA

Da minha janela
Eu vejo uma lua
Que ri amarela
Bem perto do sol

Eu vejo o horizonte
Um risco no mundo
Um mar
Uma ponte
Um sopro do além
O dia cansado
Deitando na sombra
Da noite que vem

Eu quero esta lua
Este sol também
Eu quero o contraste
A noite e o dia
Mas só posso guardá-los
Numa fotografia

30/09/2010

Os Sapatos do V'Omar



- Ela é tão mignon... – Diziam. Não era certamente um elogio, apenas uma constatação, falta do que dizer de uma criança sem graça e pequena. Marina nunca alcançou o peso ou altura das tabelas reguladoras de boa saúde. Ah os padrões, tantas vezes rompidos depois deste... A verdade é que daquela alturinha, tinha uma visão privilegiada das coisas ditas... menores. Coisas descartadas ao chão, defeitos nos ladrilhos coloridos, bichinhos rastejantes e suas tocas. E não se pode esquecer dos pés.

Várias expressões definem o estado de espírito ou características próprias através dos pés. “Pé de valsa”, por exemplo. E já se vê a pessoa deslizando pelo salão de dança. “Pé que é um leque”, uma pessoa animada, pronta para a ação. “Pé frio”, o azarado e “pé de chinelo” o pobretão. E assim vai. Os pés dão importantes mensagens e com eles, também os sapatos. Aqueles chegaram com malas. Eram bicolores, encerados e atados no tornozelo. O nome do dono deles era Omar, o avô que atravessou o mar, chegando mesmo do litoral. Veio de longe, de navio, foi o que disseram. Sapatos singulares aqueles, e vinham com cheiro de maresia, de areia molhada, de outro lugar. Com certeza, andaram por muitos caminhos, eram cheios de histórias pra contar.

A neta observava de longe aquele novo morador da casa, um estrangeiro alto de hábitos parcimoniosos, luz de velas e sapatos bicolores. Ele fazia questão destas coisas, não era deste tempo. Da mesma forma ela também era observada, aquela criaturinha séria e miúda que andava sem fazer ruído algum pela casa.

Uma noite, a menina fez um coelho de sombra para ele com as suas mãozinhas atrás de uma vela. Simularam pássaros, monstros, entre outras formas ininteligíveis que trouxeram para perto dele a infância já quase esquecida. Riram e brincaram noutra língua, numa língua não falada, apenas expressa entre risos e mãos. O avô mostrou seus livros e fotos que ficavam na mala escura, e uma concha rachada que de dentro ainda se podia ouvir o mar. A menina mostrou seu caderno de colagens e uma boneca de pano encardida, sua favorita. E naquela semana ficaram juntos como dois náufragos.
Da mesma forma que veio, ele se foi. Não podia ficar. Deixou a concha sobre a cama, para a menina ouvir seu sussurro entre as ondas do mar. Deixou também uma saudade que risca fininho no coração, que arde com a água salgada até sumir feito pegadas na areia.

27/09/2010

Fábula

E a cidade se estende, por dentro e por fora, num ir e vir sem fim. Sombras e luz, matéria e memória. E o novo se faz velho no momento seguinte em que se ergue, porque o novo já vem vindo sob a forma de projeto, brotando sem controle. E o velho já vai indo, desgastando quase sem notar. Perceber a cidade é uma experiência vívida que não se repete nunca. Não pode ser explicada porque precisa ser explorada individualmente através do espaço e do tempo, devido a sua dimensão e complexidade. A soma destas experiências forma a imagem plural da cidade, numa sobreposição de idéias com pontos em comum. Decifra-me ou devoro-te, diz a cidade com cabeça humana e corpo de bicho, e cumpre.

23/09/2010

Era uma vez no Pântano dos Gatos

Era uma vez no Pântano do Gatos
De Marina Carr
Dias 23, 24, 25 e 26 de Setembro, 21.00 Teatro da UFSC

Tradução : Alinne Fernandes (Queen´s University Belfast, Santander Universities Network)
Direção : Carmen Fossari
ELENCO:
Alê Borges – XAVIER CASSIDY, Ana Paula Lemos Souza - ESTER CISNÉIA, Antonieta Mercês - DONA MATTANORA, Cristiano Mello –AQUELE QUE ESPREITA ALMAS, Neusa Borges- MULHER GATO, Douglas Maçaneiro -CARTAGENO MATTANORA, Flora Moritz -JOSIANE MATTANORA, Simão Grubber- PADRE WILLOW, Marcia Cattoi – CAROLINE CASSIDY, A NOIVA, Marlon Casarotto - GARÇOM, Nathan Carvalho- GARÇOM, Roberto Moura – O FANTASMA DE JOSÉ CISNÉIA, Lechuza Kinski -MONICA MURRAY -A VIZINHA, CORO CORPO VOZ: Mariana Lapolli, Nei Perin, Bruno Leite, Muriel Martins, Rubia Medeiros, Silmara Grubber, Vanessa Grubber e Adenilse Venturieri

TÉCNICA:

Trabalho de Voz: IVE LUNA, Trabalho Corporal : MARIANA LAPOLLI, Professores da OPT: Augusto SOPRAN , ALEXANDRE PASSOS , SÉRGIO BESSA , IVE LUNA e CARMEN FOSSARI. Operador de Imagens: IVANA FOSSARILuz, Figurino: CALU, Efeitos:O GRUPO, Pesquisa Musical: SÉRGIO BESSA, Estagiário Assistente de Direção: Marlon Casarotto, Fotografia: Alinne Fernandes, Israel e Carmen Fossari
DIREÇÃO GERAL: CARMEN FOSSARI
Produção : PESQUISA TEATRO NOVO
Apoio: DAC-SECARTE
SEMANA DE ARTE OUSADA-UFSC-UDESC-2010
INFORMAÇÕES BLOG:
www.carmenfossari-armazemdapalavra.blogspot.com
Fone DAC: 3721-9349



Estou eu lá, fazendo outras coisas, mas "ela", a personagem, está sempre como uma sombra querendo entrar em mim com suas idéias, sua juventude por vezes irritante quando não cedo -Vou contar pro papai! - ela diz. Suas frases feitas surgem a qualquer momento. Interessante o processo de um ator não é? Esquizofrênico e às vezes até doloroso, por emprestar o corpo num deixa e não deixa que se embate por dentro. Exige-se a sua proximidade e logo, em nome da sanidade ou coisa que o valha, é preciso repelí-la! É interessante somar experiências de duas vidas com todas as suas nuances e não falo de outra coisa senão do teatro. Atores são maravilhosamente monstruosos, Jekyll & Hide...

16/09/2010

Encontro



No escuro
Olho de gato
No ar
Cheiro de mato
Proximidade
Contato

Abraço
Laço ardente
Um gesto
Unha e dente
Corporeidade
Demente

02/09/2010

Cataventos

A cada instante
Sopram os ventos
Inflam as velas
Dos meus pensamentos
E os cataventos
Giram giram giram

O Teatro se espalha ao redor do corpo como um turbilhão. Não apenas um, são vários pequenos, muitos, milhares. Devoram medos e devolvem forças, devoram forças e devolvem medos. Movem-se fazendo você se mover. Expressar. Flutuar. Expandir. Contrair até quase sumir. Um banho em ritual, te faz voltar ao normal, é o que diz o professor Alexandre em sua sabedoria. Será?


09/08/2010

Flor de cerejeira

O GOSTO DO MEL
TRANSPORTA A ALMA
PRA DENTRO DA FLOR
EXPLODE NA LÍNGUA
UMA GOTA DE SOL
E ESPALHA NO CORPO
UMA OLA DE VIDA
GELÉIA REAL
E AS PÉTALAS SE ABREM
ANTENAS EXPOSTAS
PROCURAM
POR MAIS DELÍCIAS

03/08/2010

O Barco da Memória

Passada a missa de sétimo dia e muitas lágrimas, a viúva começou a pensar no que faria ela com uma embarcação de pesca. O finado marido cuidara do barco como se fosse alguém da família, não queria desfazer-se dele.
Naquela tarde, viu uma gaivota grande e umas menores, sentadas na proa e aquela cena inspirou-lhe uma idéia. Prendeu bem o barco na frente da casa, botou uma escadinha e convidou as crianças da rua para ouvirem histórias da ilha, sentadas naqueles bancos salgados. Fez uma limonada, umas broas de milho e recolheu da memória várias histórias que ouvira no lento balanço dos anos.
A notícia se espalhou e logo as amigas, os vizinhos e os passantes também queriam participar. Assim, aquele diferente e democrático espaço ficou conhecido na região como “O Barco da Memória”, em que todos podiam reavivar as suas lembranças através dos contos e lendas locais. E quando não lembravam, criavam na hora, sem cerimônias. A viúva entregou seu luto ao mar e sem medo, navegou com seu barco da memória sobre o oceano da linguagem.

27/07/2010

Poeminha Infantil

Um canto de menina
Eu ouço pela folhagem
Uma borboleta bailarina
Brinca na minha paisagem.

O canto que me acompanha
Durante toda minha vida
Será uma sábia aranha
Que tece uma teia comprida?

Será um pássaro errante
Que voa sem despedida
Ou uma fada num instante
Da minha mente distraída
Que rouba minha razão
E nela pousa desinibida?

Pois é neste momento vibrante
Que o meu canto é mais bonito
Soa livre e pueril
Até pousar num papel
Num poeminha infantil.

21/07/2010

Alegoria Noturna


Tecia avidamente com o fio da existência, aceitando o que viesse à sua mão. Munida de uma vontade que não se explica, tomava o fio dos acontecimentos e os tecia. Com o tempo, veio a ousadia da juventude, então juntou também o fio das idéias inesperadas, da sede de conhecer e de se doar para o mundo, produzindo um tecido mais colorido do que nunca. Viajou por muitos lugares, explorando outras linhas de pensamento. Juntou-as ao seu fio da memória, recriando desenhos universais. Híbridos. Sensíveis.
Mais um tempo se passou e ela conheceu a experiência, a sabedoria, o limiar da perfeição de Aracne. Com os fios prateados sobre a testa, teceu preciosidades nunca antes imaginadas. Teceu as filosofias complexas e as vivências ecológicas, teceu as histórias do planeta e as vanguardas, as ciências e seus paradigmas sistematicamente quebrados. Teceu a exatidão da matemática e a força reveladora da arte. Teceu a abundância e a miséria.
Uma noite, entre mil e uma, sentiu que a vida foi se esvaindo devagar. Com a vida por um fio, todo tecido passou defronte dos seus olhos e então...
Deixou-se levar por seu tapete mágico.

16/07/2010

Cálice

O CÁLICE CHEIO
OUTRO MOMENTO
CONTEÚDO AO MEIO
RAZÃO
TORMENTO
FOGE
A
O
S
P
O
U
C
O
S
OUTRO MOMENTO
SE FOI POR INTEIRO

15/07/2010

Pedro e a Galinha Maricota


Pedro e a Galinha Maricota
Esta é a história de Pedro,
Um menino muito travesso.
E de como ele aprendeu a gostar,
Embora não fosse assim no começo,
Dos animais e seus filhotes,
E com amor, a todos tratar.
Quem lhe ensinou tal lição,
Foi Maricota, a galinha.
Se quiser saber mais então,
Leia este livro, linha por linha,
Pequeno, mas feito "de coração".
O livrinho saiu agora mesmo da gráfica. A história é de Julião Goulart e as ilustrações são minhas, como as duas (imagem da capa, colorida, e de uma parte da história, preto&branco) que podem ser vistas aqui. Como ainda não ocorreu o lançamento, não há endereço de venda. Aviso no blog quando houver. O primeiro livrinho de muitos... com certeza.

14/07/2010

BECOS


BECOS

Luzes da cidade
Noite nas esquinas
Reflexos de néon
No fio da madrugada
Ando pela rua
Negros pensamentos

Luzes da cidade
Passos na calçada
Sombras esguias
Bichos noturnos
Olhos que brilham
Em seres invisíveis

Luzes da cidade
Mentes vazias
Andares furtivos
Entre bares e becos
No fio da navalha
Úmidos vermelhos

Noite na cidade
Ando solitária
Por trilhas esquecidas
Busco alguma coisa
Que mostre a saída
E diga que estou viva

12/07/2010

O Teatro


Desenho feito com pena de bambu, extrato de nogueira sobre papel artesanal. Nos objetos de tempos remotos procuro a mim mesma... No teatro me encontro.
Não suportando definições fechadas, prefiro me manter indefinida. Mudanças capitais de tempos em tempos, para não assentar poeira. Quero sempre me manter como as sombras fugidias, o cheiro da chuva, os sons efêmeros das risadas, as lendas contadas em rodas de fogueira.

10/07/2010

Memórias

ESTILETE
PREGO
PAPEL
CANETA
PINCEL
DEFINITIVAMENTE
NÃO EXISTEM
SÃO EXTENSÕES DA MÃO
E A TINTA O SANGUE
MESMO ASSIM FLUI
MESMO ASSIM DÓI

09/07/2010

Malha Urbana



O que é uma cidade? Além de tudo o que se apresenta, temos a perspectiva a partir dos nossos olhos e do nosso pensar, das nossas memórias. Cada parte da imagem, arquitetural ou não, modificando-se por este ponto de vista em movimento, gerando infinitas possibilidades visuais. Uma massa que se transforma eternamente à nossa volta e justamente por isto é também transformadora: à mercê de seus efeitos, mas também participando de seu cotidiano, a cidade se desenvolve diante e a partir de nós e nós, diante e a partir dela.

08/07/2010

Era uma vez no Pântano dos Gatos








"Era uma vez no Pântano dos Gatos"... ou "By the bog of cats"
Tive o privilégio de participar desta leitura dramática encenada, escrita pela irlandesa Marina Carr, traduzida por Alinne Fernandes e dirigida por Carmen Fossari. Aconteceu em 28 e 29/06 no Teatro da UFSC e foi uma apresentação da Oficina Permanente de Teatro - OPT. Trabalho vocal de Ive Luna e corporal de Mariana Lapolli. Atores: Alê Borges, Ana Paula Lemos Souza, Antonieta Mercês, Cristiano Mello, Neusa Borges, Douglas Maçaneiro, Flora Moritz, Simão Grubber, Marcia Cattoi, Marlon Casarotto, Nathan Carvalho, Roberto Moura e Lechuza Kinski.
Todo processo foi registrado em fitas cassetes, vídeos e fotografias. O texto dos atores e atrizes , bem como o da direção , servirão de subsídios à tese de Doutorado de Alinne Fernandes na “Queen´s University Belfast, Santander Universities Network”. A pesquisa de Alinne, que já foi aluna de teatro da OPT-DAC, versa sobre o tema O TRADUTOR E A DIREÇÃO.
Um texto envolvente, figurino vintage, ambientação com efeitos de fog, iluminação indireta, video e coro - corpo e voz fizeram desta, uma experiência cênica única! Interessante e perturbadora... Escrevi o texto abaixo sob os efeitos da peça e mesmo tendo passado 10 dias, não podia deixar de escrever sobre o assunto...

DIVAGAÇÕES NO PÂNTANO DOS GATOS
Na sacada, envolvida por um manto de dúvidas, admiro o céu. Nuvens muito altas e ralas estão pintadas na abóbada azul. Um breve olhar abaixo, à terra, pesados mosaicos de prédios. Pesadas também as relações quase visíveis ligando pessoas como fios entre traços e volumes. Inevitáveis. Faço parte disto, mas reluto em acreditar. Lá no fundo o mar, novo sopro de azul, de vazio, de salvação. Encaminho pensamentos rentes ao chão para lá se afogarem. Já posso voltar agora. Não menos leve nem menos tensa. Apenas eu, caleidoscópio.



07/07/2010

Noite


É NOITE
AMANHÃ ONDE PRETENDO ESTAR?
É NOITE
MEU PENSAMENTO
É LIVRE
PODE IR
À TERRAS DISTANTES
CONSTRUIR
CASTELOS E PONTES
CIDADES DE LUZ
CACHOEIRAS DE SOM
MAS
IRONICAMENTE
PERGUNTA E PLANEJA
SIMPLESMENTE
O MEU AMANHÃ

LIVRE

TÃO LIVRE QUERO ESTAR
QUE ATÉ DAS PALAVRAS
BUSCO ESQUECER O SENTIDO
TODOS OS SENTIMENTOS
TENTO ESCONDER DO MUNDO
E ATÉ DE MIM MESMA
BUSCO O NÃO SER, O VAZIO
MAS O PESO ME EXIGE O CHÃO
O BARULHO DO VENTO ME LOCALIZA
E A PALAVRA
MAIS QUE TUDO
VIAJA PELO CORPO
E COMANDA MEU BRAÇO
AUTORITÁRIA

05/07/2010

CONTRASTE


AO MEIO-DIA
TODO PRETO E O BRANCO
TODO CONTRASTE
DECLARA
A VERDADE
TODOS OS CORPOS
CAMINHAM
E CEGOS
CONVENCEM
A ENGRENAGEM
A ANDAR

À MEIA-NOITE
TODOS OS GATOS
SÃO PARDOS
E A ALMA
VOA
A CORES

04/07/2010

O mar numa concha


OS SONHOS SOPRAM
AS RESPOSTAS
DOS MEUS ENIGMAS

LIBERTAM OS MONSTROS
QUESTIONADORES
DAS MINHAS ESFINGES

ABRAÇAM OS MUNDOS
PARALELOS
DAS MINHAS TEIAS

Iniciando...

Bem-vindos ao meu blog recém criado. Através dele, quero espalhar minhas pinceladas, palavras, pensamentos pelo mundo... Uma boa navegação a todos!